quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Sono

O menino vê.
Lá está o seu grande pesadelo: o monstro que o assusta, mas também o impressiona pela grandiosidade. É turvo, não sabe bem que cor exata. Talvez ele seja invisível, transparente. Talvez ele só espelhe o que vê do céu, como um invejoso Narciso. Não se sabe ao certo, não se recorda. O menino o vê, com admiração e assombrosidade. Vestido com roupas em crochê, aquele era um passado distante demais para detalhes. Distante demais para guardar sentimentos. Só se lembra da tal roupa, do tal turvo e nada mais.
Em tanto tempo distantes, criatura e criação se esqueceram da face um do outro. Doze anos de perda e de medo do reencontro. O medo de reencontrar a quem tantos misteriosos sentimentos lhe proporcionou. E por falha na história, o momento foi propício.
A ousadia custa caro: é preciso sofrer para rever tão bela poesia, sem convite. Entrar sem bater é ousadia verde. Suores necessários para azuis salgados.
E eis que o menino viu: seu grande pesadelo metamorfoseado em beleza ímpar. O azul mais-que-perfeito. A confusão de sons e o suor lhe pingavam, mas não confundiam seus sentidos. Visão para vê-lo se perder com o céu no horizonte. Tato para tocar-lhe os pés junto da areia do tempo, areia branca e pura. Boca para beijar-lhe e sentir, acima de tudo, o sal na pele: o gosto de mar.
O menino já não mais menino, já não mais perdido entre vida que não lhe pertencia, embora ainda boquiaberto com a magnificência azul, pedia melhor encontro: mais profundo, menos terrestre. E tomou-lhe a água da discórdia, água que tanto lhe trazia como retirava. Água atemporal, água seca... água viva.
Do reencontro gélido à intimidade quase adulta não demorou muito, o monstro já não lhe aterroriza, impõe apenas o respeito que lhe é merecido. Apenas a vontade de ambos, dos presentes sinceros do menino, das conchinhas resgatadas na orla. Pé na areia, sempre e olho no horizonte. Festa ao chão, de estrelas. Cadentes, cadenciando os risos, os passos, as danças e os desejos.
Desejando água de beber o doce do mar noites tropicais ressacar matutina com coloridos de grãos.
Assim assim quis ter o oceano por todo o tempo. O menino era feliz: sabia da reciprocidade das ondas. E no último encontro ensolarado, não pediu nada que o infinito dos grãos de areia, que o infinito de onde a vista não alcança não pudessem lhe dar:
"Traga-me o amor, embalado em concha. Pérola negra, nunca vista, porém já amada e ansiada".
O menino vê futuro bom, sal que nunca adocica. Poseidon há de cumprir sua promessa.
Vem e vai vem e vai vem e vai vem e vai vem e vai vem e vai vem e vai...
Já não sei mais se o sal que me toca a pele vem do mar ou das minhas lágrimas.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Memento mori


Não sei do atual, mas há algum tempo tenho me dado conta da fragilidade de todos.
Não sei do atual, não sei o porquê da existência hipocondríaca.
Queria um estudo aprofundado sobre as loucuras da psiquê. Me seria de bom uso. Portanto... adentrando o fabuloso mundo memento mori, eis que me pego pensando sempre no legado de cada um, na dor, no que fica e no que se vai. É absurdo, eu sei (maison du diable), mas não posso evitar.
O que você vai deixar para mim? É uma questão do destino? Sentirei saudades?
É... só não me torne deus ao fim da estrada. Fui-me mortal, e assim sempre serei. A santidade deixo às pedras. Cisnes negros caminham pela lâmina aquática do sofrimento.
Medo só há na consequência, não em decorrências.
Será que alguém já encontrou-se no limbo mental? Onde não é exatamente clara a realidade do mito?
Como tornar-se mito, se tudo soa tão... tabu? Minotauro.
A roda do ka está sempre alerta e em movimento. Talvez todos necessitemos desses momentos de profunda reflexão e pseudo-retorno ao nosso lar pré-fecundativo. Talvez só eu e minhas ponderações precisem disso.
Não sei. Tenho ansiedade. E medo de estragar. Decepcionar.
E medo de me perder de vista de mim.
Medo de coisas que doam.
E de fracassar.
É tudo uma questão de como olhar o dado lançado. Aquele que se vê no espelho sou eu. Minha cabeça não está boa.
[filho de cuca legal]
A situação toda se define com meus cabelos. Eles falam por mim: pela rebeldia, pela descaracterização. Vejo o momento breve em que aquilo que tanto foi protegido e adorado, ser cortado sem dó. Porque é assim que eu funciono, enquanto me agrada, continua ali, mantém-se belo. Não me agrada mais - o corte é rápido.
Vale?
Quando o mestre vai, o aprendiz fica desfalcado. Não acredita e passar por alguns momentos malucos à la Kübler-Ross antes de procurar realizar a situação. Quando encontra a verdade, junto dela vem a beatificação e o arrependimento pelo não-feito; é dentro do aprendiz, somente, que nasce o ódio à inferiorização (inferioridade?) humana. Incomunicabilidade. Oportunidade. Não sei, divaguei nos meus próprios medos.
Desculpe pelo aspecto perdido. É tudo uma tentativa de contar o que anda tão profundamente segredado.
Há terra à vista. Só não sei ainda se estão devastadas ou não.
Prometa-me que quando dado o momento, não haverá arrependimento, nem dor. Haverá busca pelo dito e pelo feito. Os bons serão lembrados. Os ruins serão aprendidos. Lembrar-se-á do caminho individual e de que sempre tem algo para nos ser dado como ensinamento, ou presente.
Faço-me dia apenas para mim.
Faço-me difícil para por fim ser lembrado que vi  mudança e me tornei mudança. Abdico-me de tua ausência. Presenteio-me com a liberdade.

[and now I walk into the wild]