O menino vê.
Lá está o seu grande pesadelo: o monstro que o assusta, mas também o impressiona pela grandiosidade. É turvo, não sabe bem que cor exata. Talvez ele seja invisível, transparente. Talvez ele só espelhe o que vê do céu, como um invejoso Narciso. Não se sabe ao certo, não se recorda. O menino o vê, com admiração e assombrosidade. Vestido com roupas em crochê, aquele era um passado distante demais para detalhes. Distante demais para guardar sentimentos. Só se lembra da tal roupa, do tal turvo e nada mais.
Em tanto tempo distantes, criatura e criação se esqueceram da face um do outro. Doze anos de perda e de medo do reencontro. O medo de reencontrar a quem tantos misteriosos sentimentos lhe proporcionou. E por falha na história, o momento foi propício.
A ousadia custa caro: é preciso sofrer para rever tão bela poesia, sem convite. Entrar sem bater é ousadia verde. Suores necessários para azuis salgados.
E eis que o menino viu: seu grande pesadelo metamorfoseado em beleza ímpar. O azul mais-que-perfeito. A confusão de sons e o suor lhe pingavam, mas não confundiam seus sentidos. Visão para vê-lo se perder com o céu no horizonte. Tato para tocar-lhe os pés junto da areia do tempo, areia branca e pura. Boca para beijar-lhe e sentir, acima de tudo, o sal na pele: o gosto de mar.
O menino já não mais menino, já não mais perdido entre vida que não lhe pertencia, embora ainda boquiaberto com a magnificência azul, pedia melhor encontro: mais profundo, menos terrestre. E tomou-lhe a água da discórdia, água que tanto lhe trazia como retirava. Água atemporal, água seca... água viva.
Do reencontro gélido à intimidade quase adulta não demorou muito, o monstro já não lhe aterroriza, impõe apenas o respeito que lhe é merecido. Apenas a vontade de ambos, dos presentes sinceros do menino, das conchinhas resgatadas na orla. Pé na areia, sempre e olho no horizonte. Festa ao chão, de estrelas. Cadentes, cadenciando os risos, os passos, as danças e os desejos.
Desejando água de beber o doce do mar noites tropicais ressacar matutina com coloridos de grãos.
Assim assim quis ter o oceano por todo o tempo. O menino era feliz: sabia da reciprocidade das ondas. E no último encontro ensolarado, não pediu nada que o infinito dos grãos de areia, que o infinito de onde a vista não alcança não pudessem lhe dar:
"Traga-me o amor, embalado em concha. Pérola negra, nunca vista, porém já amada e ansiada".
O menino vê futuro bom, sal que nunca adocica. Poseidon há de cumprir sua promessa.
Vem e vai vem e vai vem e vai vem e vai vem e vai vem e vai vem e vai...
Já não sei mais se o sal que me toca a pele vem do mar ou das minhas lágrimas.