sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

São São Paulo

[a cidade é o mangue: abriga os homens-caranguejos que vão do lixo à lama]


Eu aterrisso em São Paulo. A capital-natal, a metrópole-mãe.
Sou um filho do Caos, pertenço ao congestionamento de ideias, ao engarrafamento de passos apressados.
Dirijo meu destino dentro de trens lotados, eu fumo a poluição. Eu choro ácido.
E me encanto repetidas vezes ao ver o céu de morangos podres em um fim de tarde. Ver o vômito migrante sentado no passeio público. Me surpreendo com anjos caídos com coca-cola nos bolsos. Me instigo com a sabedoria dos loucos. Não tenho medo de nada: sou filho de Augusta, sobrinho de Angélica, neto de Consolação.
Não que me apeteça, mas o regozijo moderno é comer as pessoas. Comer a cada esquina-cega, a cada parada obrigatória. Sou um antropófago do chorume cidadão.
Sinta o cheiro putrefato de globalização!
Sou filho do Medo, da Violência, da Intolerância. 
Não tenho medo da morte, só do povo. Veja-os andar lentos, iguais e cegos (deleitei-me de seus cérebros ao café da manhã: estavam ocos, suculentos)!
Nasci sob o signo da rotina. Sou filho do rio Tietê.
Meu sobrenome é Marginal. Encontre-me na Praça da República - fui abortado por ali.
A beleza de minha mãe é bipolar, quase grega. Amo-a durante a noite, desejo-lhe a morte durante o dia. Mas tenho-a importante pelas tetas de leite negro, amargo.
Vacas profanadas me mostram os cus.
E em vida adulta o que se tem é a divina epifania dos pequenos momentos. Sair de casa, pegar uma bela chuva na sola do sapato pelo destino e ainda retornar com temperaturas baixíssimas. Felicidade é aqui.
Felicidade é aqui, com direito a esquizofrenia, síndrome do pânico, depressão, hipocondria. Presentes dos deuses!
Ai, lá vem novamente a mesmice dos dias, me corroendo os órgãos, dilacerando meu fígado. Bônus aos ratos urinando em nosso travesseiro e baratas americanas descansando em nossa boca, o convite é dormir. Escorre-lhe pelos cantos o caldinho branco, já sabes de antemão o sabor do mofo. Talvez se eu deitar em agulhas, consiga arrancar do sangue tanta pureza, tanta euforia inseticida.
É a psicodelia da cidade me comendo feito traça. Eu como, tu comes. Nós manjamos tua sagacidade.
Sagacidade. Fugacidade. Voracidade. Alice nas cidades.
Brindemos com lama! Água poluída (faz bem à pele)!
Trago na cestinha de ovos podres todos os sabores de pessoas fúteis. Em meus olhos, a câmera atemporal guarda o cotidiano esquecido em polaroides urbanas. Sinto cheiro de morte. Sinto cheiro de chuva em asfalto, o peixe podre está em alta. Comamos em frente ao Theatro Municipal (ou no Páteo do Collegio).
Cansei. Vá às putas.
Eu pego o caminho da estrada. Vou-me ao porto. Vou-me ao mar.
Embora não te preocupes comigo: levo-te em uma sacolinha plástica junto de ar poluído. Fuma-lo-ei.

1 zascandil:

AN disse...

hel se deleita com o gosto da água, para lembrar que a perda existe. a perda breve, em engrenagens muito pouco polidas: sal e pedra, formando constelações.
hel sempre se deleita (: