quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A paixão segundo H.G.

Adentro agora o submundo das palavras.
Penetro cegamente o reino das baratas.
E assim iniciou-se tal qual a vez de Cristo(vão?): de uma leitura me veio toda a verdade do mundo.
Noite tropical - meu corpo repousava sob o colchão ao chão, e eu lia Clarice Lispector. Eu lia a ascética do inseto de olhar negro, facetado, brilhante e neutro. Aquele objeto de grande luxo.
Tomado pela paixão, as letras me engoliam em asco e empatia. Deglutira-me em meio a tanto horror, tanto sol no meio da noite. Aquele quartinho de empregada era meu. Eu estava ali, pronto para fechar a porta do armário. Peguei a valise com o H.G. no couro e me permiti o segundo nome. Ali eu podia ser, mesmo não gostando dele: o ser requer seriedade, sentimento. Era uma liberdade natural, e na viagem, só eu me acompanho mesmo. O resto é desejo.
E no calor do amor meu por G.H., eis a aparição da face negra!
Gritei, em comprimido silêncio (a surpresa me atinge mais que o ser em si). Surpreendi-me gritando pela escória do subúrbio... e por alguns segundos, me perdi do caminho de casa.
Logo me descobri dentro de casa, dentro do tal quartinho branco, e realmente estava ali, a madame americana. A musa secular. Tão divina que não pede licença para entrar: adentra meu submundo ali - tão desprotegido pela paixão, tão frágil pelo nome!
Maldita seja a divindade do lixo.
[lavo meus olhos para não contaminar-me de tua santidade]
Naquele voo cego recuperei os sentidos, e fez-se o tato meu escudo primeiro. Nas mãos nuas, busquei a proteção dos pés. Sim, só me equiparo à rainha negra pelos pés. Dos pés se faz escudo primeiro.
Certamente ela conhecia meu despreparo, afinal aquele eu que a vira era o mesmo eu livre de máscaras. Era o buraco na árvore em que G.H. contava suas revelações. Era H.G. e naquilo a barata viu alguma vantagem.
E a mãe imunda voou em minha persona despudorada. Fez-se agonia em êxtase.
No momento seguinte fez-se a luz culpada do voo. Sempre a culpo em resignação e hipocrisia.
Janelas abertas são convites gozosos.
Voltei-me às armas e tentei inutilmente provocar a revolução do eu sozinho com a liberdade. A americana riu, e isso compreendi. Apesar da língua estrangeira, o riso foi tão maléfico quanto uma mãe daria ao seu filho. Naquele instante eu fui filho da barata.
Não que eu não compreendesse o inglês, só não compreendia a estrangeirice dos fatos, a entrada não-autorizada em tão íntima profundidade poçal. Culpo o quente em resignação e hipocrisia [amém]!
Sem desistir em iminente fracasso, a falsa majestade preta fez de casa o que me era conforto e minha paixão deve ter-se iniciado bem aqui. Do quarto branco infinito só me restou o colchão ao chão. Tudo era medo e asco. Transformei os sentimentos nulos em raivosa espera.
Posso relembrar do livro cedido especialmente para aquele hiato sentimental no sul do Brasil, aquele da cucaracha brasileira em terra do tio Sam? Era para ser só um hiato, portanto seria de extremo bom-tom reavê-lo em minha cidade, conforme combinado. Não digo mais palavra sobre. Sendo assim, decidi munir-me de conhecimento. Ele me protege da barata nossa de cada dia. G.H. já me dizia: "bendita sois vós entre as baratas".
Sendo assim, tomei meio litro da coragem envergonhada e sentei-me no palácio da bruta senhoria.
Continuei no cotidiano-inconsciente-azul, embora não sabia a dita que minha égide estava a punho, esperando pela audácia gratuita dela. Aquele meu eu já não parecia tão pueril e dado, agora era o outro, H.G. estava dormindo. Ela que viesse nesse... te prepara, vadia! No fundo do poço eu ria aquele riso americano. Venha, mamãe-filha, para a morte.
Pausa para compreensão. A posta morte não era a morte literal, porque no meu ínfimo era uma morte shakespearearizada. Era morte de sangue de barata, de mentirinha. A rainha nunca perderia o trono. É só encher de ar e voltar à ativa, bem longe de mim, diga-se. A morte foi dádiva a quem tanto a viu agir formalmente. Dito isso, voltemos ao causo.
Fiquei pouco tempo no meu cotidiano-inconsciente-azul dentro do quarto branco. Logo chegou-me a sensação presencial da desumanizada que saíra do templo. Agora, sim! Eu com conhecimento escudeiro agora sabia mais que a falsa majestade. Sem antenas eu já soubera de antemão a forma real da velhice. Era uma barata, apenas. Nada mais qualitativo que dar o nome a quem lhe sabe o significado.
Dando os nomes certos me protejo do erro.
Dado o conhecimento a quem teve sede e a arma ao assassino, foi de uma vez que depus a falsa negra rainha. Caída ao chão, fora de seu invólucro de superioridade, a venci. Venci temporariamente - sabia que quando menos esperasse ela se encheria de ar e me vingaria sua primeira morte com aquela provocação lixeira típica e sem esforço. Por isso mantive o tal livro encravado em sua cintura dura e grossa (crec crec soou a mim).
O sentimento do mundo que me tomara ao teatralizar a morte foi dissipando-se conforme eu me voltava à delirante G.H., e sem meios-termos, ela me envergonhava do ato em si, do desejo. E a cada linha retornada, meus olhos outrora lavados contra a santidade baraticida agora buscava o milagre da ressurreição. Eu me distraia da leitura por culpa da morte. Se houvesse a ressurreição, meu perdão seria concedido em paz para prosseguir a viagem (des)culpado.
Todavia me enganei várias vezes daqui em diante.
O perdão me foi negado e não consegui bilhete para a alucinação. Fiquei preso em sonhos lúcidos e quando acordei, o corpo ainda tinha fincado em sua cintura o que antes fora minha égide. Meu grito de horror voltou-se à barata agora. Esperava mais inteligência do subsolo. Superestimei a vítima em cega brutalidade.
Eu fui vitimizado pelo meu próprio ato.
Ainda sem poder prosseguir no quarto branco fictício, fui aos meus afazeres. E só retornei com sol a pino. Adiei enquanto pude, esperançoso com o mais absurdo dos milagres.
[não, não acendi o cigarro planejado]
Removi o livro com a delicadeza com que cometi o crime.
Ali estaria para mim um cadáver. E recebi minha penitência ao ver as antenas, ah, as antenas! As antenas estavam se comunicando com minha alma, senhor!
Anestesiado pela dor surpreendente, removi a vida ainda falante para fora do quarto - ao ar livre - ainda esperançoso de transformar tão pouca energia em voo amaldiçoado, água em vinho, pedra em ouro. Bendito é o voo longe de mim.
Por fim, paguei meus pecados todos com a delicadíssima forma de ver o corpo sem vida passar todos os dias por mim, molhado pelas chuvas inexoráveis de janeiro.
Cometi um assassinato e meu pagamento é me confundir com G.H. (ou seria H.G.?) por toda a eternidade.
Cometi um assassinato e meu pagamento é saber por toda a eternidade que nem a mínima das baratas ressuscita... a minha graça maior foi conhecer a inexistência delas. Inexistem como dinossauros.
Nem a mais imortal das viventes conhece o infinito. Amém, disse meu sorriso espantado.
Ai de meus atos falhos.

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