Escrevo para ti. Dedico-te minha letra, minha caligrafia.
Dedico-te palavras para desenhar teu corpo nu, sem nuances. Sigo-te em meu canto, calado.
Deita-me em teus cabelos, canções aquosas. Deita-te em meu colo, cheiro de mar.
Maré.
Venha ao mar venha ao mar vem me amar vem me amar
Prepara-me o café: seja-me tal qual o amargo, o âmago, o amor. A paçoca e seu agridoce.
E se faça a saudade primeira. Grãos de areia em teu umbigo. Sopra-os: são poeira das estrelas. Faça teu desejo real, assim como busco em teu rosto a constelação perdida que me abandonou aqui.
Que venham encontros e cais. Meu porto seguro, meu porto alegre.
Desembarco meus anseios, presenteio-te de beijos-todos-abraços-muitos. Venha-me sem pudor. Abandona teu medo com fugacidade. Despreza o inadequado com coragem. Não diga adeus! Apenas libera seus outros eu's que me levam ao rio de sua mente, às coordenadas da sua verdade. Teu mapa-múndi. Sonos. Sou. Nós.
Só peço a exclusividade lógica (como 2 e 2 são cinco). A liberdade óbvia. O querer não mais do que esperado, dá-me tudo que não for forçado. O não-direito, o desapego.
Meu passo é teu, meu pulso é deste todo-poderoso sentimento.
Dosa-me com tua boca, gota por gota da anti-amargura dos dias, da solidão. Antítese do sozinho és para mim.
Caminhe sob meu sol. Arda com lascívia. Mata com luxúria.
E beija-me a boca tua com ferocidade própria de tua espécie. Seja leãozinho, seja tigresa.
Seja-me quente enquanto infinito.
E carinho enquanto dure.
[ama-me muito mesmo que por pouco tempo]
Ah, se tu soubesses...
... que o que te faz ser quase um segredo é ser-te assim tão [ ].
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
O coração e a pena
Eu tinha algum motivo relevante, já não me recordo.
São tantos detalhezinhos que eu acabo me perdendo na grande história. Talvez seja melhor.
Me parece como aquela tarde outrora, em que eu estava dentro de um ônibus, e o vento corria solto na pele anteriormente molhada por aquela água mineral, puríssima. Olhei ao céu e lá estavam todas as cores inesperadas, e também os sentimentos desejados. Às vezes esse misticismo gratuito vem à flor da pele, me derruba de toda urbanicidade típica, de toda lógica. De extrema importância isso, saber quando pode-se deixar levar pelo irreal, pelo mágico, pelo não-confirmado.
Não quero divagar muito, meu intuito é usar a balança. Apontar o tempo ido, o ano passado.
Sim, é possível a metamorfose. Metamorfose, repito. Porque a mudança não equivale à carga da metamorfose: o poder em trazer consigo tudo já vivido e ainda o novo. Sábio era Raul.
Sim, é possível a metamorfose. Metamorfose, repito. Porque a mudança não equivale à carga da metamorfose: o poder em trazer consigo tudo já vivido e ainda o novo. Sábio era Raul.
E metamorfoseando por aí lá vão-se os meses, os (falsos?) amores, os desafios, problemas, risadas... pessoas. Nós evoluímos? Nos desenvolvemos? Talvez.
Me encontro mais no talvez do que nas certezas.
Ódio poruns amor poroutros.
[amor esse sempre caçado nos lugares errados]
Ai, Dindi, se tu soubesses...
Lembrar das tardes de divagação, olhos ao teto. Lembrar das tardes de catarse, boca profana.
Lembrar das noites frias, madrugadas niilistas, manhãs sexuais. Lembrar das quatro estações, do inverno assassino, do choro gatuno (dos gatos todos e miados muitos). Manhattan, Paris, Quebec, Reykjavik, Porto Alegre. Invento cais e não sei a hora certa de me lançar.
São tantas lembranças de um tempo novo... a seleção acontecerá, gradativamente.
Houve felicidade, houve dor, é de praxe - nenhuma novidade. Houve perda.
E vem aquela dorzinha em formato de vela, lá no finalzinho do peito. Ela caminha devagar, chora cera. A minha atenção só pode ser desviada se me fecho a tudo, ouço a neblina pululante e eis que se fazem matéria as árvores (ladras de minha falácia) e os dentes (doadores do meu ar fálico).
Primavera entre os dentes.
Primavera entre os dentes.
Há também o horror. A contra-evolução das espécies: o ódio generalizado, a repressão encravada, a língua afiada. Enquanto isso, eles riem de nós. E eu me envergonho dentro de mim. Olho ao teto.
É a crise da beleza, degradando-se como fruta podre. Germinando o fungo. Eu como o cogumelo da experiência, do real extremado.
[faz-me mal, faz-me mau]
Muitas foram as oportunidades, os encontros comigo mesmo. Pude observar-me melhor, cientificamente falando. Antes da palavra não-dita houve a observação minuciosa de vontades e quereres. Ai de mim que sou tolo, sou tão pouco, perto do meu eu maior.
Acredito nele? Lá me vem o talvez novamente.
Tudo é resultante de uma longa e exaustiva brainstorm natural, que me levava ao papel e à caneta de forma quase inconsciente. Foram dias, semanas e meses em memórias não-vividas, flashbacks futuros (flashforwards?) e muitas palavras amigas-passageiras. Se pensar desta forma, o que me parece é uma coleta (ou colheita) de passarinhos mortos. Sim, mortos, pois quando vivos os deixei voar alto demais. Agora eles não cantam mais - perderam o valor entre aviões e nuvens densas.
Meu trabalho agora é fazer um grande funeral de pássaros mortos, talvez encontrando carne fresca dentre dentes de alguns, podridão dentre outros. Só é preciso ligar a chave que me move.
Saia, saia. Ela me disse. Saia, saia.
E quando eu vi, já me encontrava alucinado pela falsa baiana, pela pimentinha - mais do que o aceitável. E como tudo é liderado pelo caos, fui de encontro ao impávido colosso, o regente sem face. Ainda me encontro neste estado calamitoso, embora agora eu esteja atento e forte. Mais do que no instante convidativo de "saia, saia". Cortem-me os cabelos, relembre-me todo o resto. Não duvido nada estar em meu momento de "relembrar" todo o plano superior. Sentir-se em casa, como diria alguém. Estou voltando para poder tomar meu lugar de direito, como rei desmemoriado relembra o rosado tímido do rosto da esposa/rainha. A única tristeza nisso é ter mais de vinte anos, vinte muros.
[o sangue jorrando pelas veias de um jornal]
[o sangue jorrando pelas veias de um jornal]
O eterno-retorno do começo, como num certo livro... "lá e de volta outra vez". Cicatrizes para saber que o passado foi real... E a ciranda fica cada vez mais distante do que era meu arquétipo de perfeição: as chuvas de verão retornam (metamorfoseadas) e as brincadeiras de quem não sabia o que era viver vão sendo desbotadas, as opiniões dilacerando, os beijos destroçando, os abraços vão partindo. Vão-se as pessoas, fica-se a presente ausência. É tudo dor no final. Ai, meu coração vagabundo...
No âmago de tudo, suponho que minhas memórias são como um xilofone, ou um pianoforte: algumas teclas são esquecidas temporariamente, mas sei que voltarão, cedo ou tarde. E junto delas virão gostos agridoces e maresias oculares, talvez. Vou abrir a porta para tudo que entrar deixando a hostilidade no capacho lá fora. Que venham as novas estações.
E os mistérios necessários para me navegar. Afinal, viver é preciso...
Findo por aqui, por ora. Tirando a poeira de quem me acompanha sempre na batucada da vida, companheira de trens azuis idos e ainda porvir.
As coisas estão tão esquisitas hoje em dia, que a gente… incrível… a gente anda ressabiado de dizer que gosta das pessoas. Então, a gente inventa coisas, entende? A gente inventa que é tímido e que não encontra jeito de dizer. A gente inventa que está ocupado e que um dia vai, sei lá, vai ter tempo de sentar e conversar. Aí, de repente, você se toca que não tem mais nada pra ser feito. É tarde.
Elis Regina
Meu coração e uma pena na balança.
Quem pesa mais? Qual é a verdade absoluta?
Pecados não-correspondidos, sempre compartilhados.
Sinal fechado.
[por favor não esqueça não esqueça não me esqueça adeus adeus adeus]
[por favor não esqueça não esqueça não me esqueça adeus adeus adeus]
domingo, 4 de dezembro de 2011
(Re)visita
Din! din!
A campainha toca. Ainda funciona.
Raul corre para abrir a porta, gira a maçaneta e dá de cara com Bernardo - há tanto tempo não o via... Grata surpresa!
Os dois se cumprimentam como nos tempos de faculdade, nada mudou. A não ser a barba por fazer do Raul, e os cabelos mais desgrenhados do outro. Detalhes.
- Então, cara, vim buscar aquele meu disco do Velvet... Tô precisando dele, Raul...
- Ah, claro, vou buscar, acho que está lá no quarto. Fica à vontade. Pega uma bebida na geladeira.
Bernardo aceita a bebida e abre a geladeira, encontrando - além de um guaraná - prateleiras completamente diferentes de quando morou ali: alimentos e tons outros. Mudança.
Volta à sala, senta-se no sofá e respira. Num súbito aqueles cheiros tão conhecidos lhe sobem às narinas. Tudo parece voltar, toda a atmosfera tão familiar... E junto lhe vem a melancolia nostálgica típica de coisas que não voltam mais. Ah, como eu era feliz...
E assim, o passado (que todos sabem ser um animal grotesco) trouxe de volta aquele pufe azul com um pequeno furo no canto direito... O relógio Dalínesco meio torto na geladeira... Nossa, como se esquecera do James Dean no porta-retratos tríptico? Objetos de afeição - que contavam histórias. Boas ou ruins, mas sempre importantes no contexto geral.
Bernardo ouviu aquele miado tão gostoso vindo do quarto, misturado com um afro-samba do Baden. Melancia veio desfilando direto ao colo do amigo-dono, toda carente e dada às carícias. Os pelos dançavam entre os dedos dele, como ondas entre rochas na praia. Ela se deitou entre suas pernas, e dormiu.
Aquele momento simples valeu por toda uma vida. Segundos preciosos de algo que já não lhe pertencia.
- Nando, acho que estou com teu Cinema Transcendental também, espera que já entrego os dois! - gritou Raul no quarto.
E toda a magia da memória esvaiu-se sem piedade. Não havia Melancia, Baden Powell ou pufe azul. A cor desbotada do presente estava ali, o aroma da felicidade se fora. Estava novamente só com sua solidão.
A não ser pela estante. A estante continuava intacta.
Aquela estante branca... talvez a única coisa que compraram juntos. Repleta de livros de arte, cinema, fotografia... Alguns discos bem tímidos no compartimento inferior, outros CD's meio perdidos... A organização milimetrada do Raul, as cores desenhadas por ele mesmo... a estante representava os quatros anos que passara ali. Quatro anos de maré. Quarenta e oito meses em êxtase, boêmia e verdade. A verdade valia por tudo.
E a verdade estava ali, meio empoeirada, mas (no) presente, no instante, na estante.
Bernardo sentiu a necessidade gratuita de tocar em tudo aquilo, para poder realizar em sua mente, tocar para ser real. E no leve passar dos dedos em lombadas calejadas, foi difícil segurar o choro. Choro esse guardado entre as palavras outrora lidas, outrora recitadas. Choro de quem não o fez quando ainda era possível arrepender-se. Choro engolido com o tempo.
- Nando, tu está bem?
Raul o olhava perplexo, sem entender bem a situação toda. Se olharam por três segundos. Aqueles três segundos em que você deseja voltar, entender o erro, refazer o caminho. São três segundos onde as horas pedem descanso e os ponteiros apontam para o número dois em vez do um. Três segundos cujo alguns erros podem ser postos à mesa, mastigados de novo com certo ardume, com certo receio. E se meu final fosse feliz?
Um Bernardo marejado (enseado) respondeu:
- Estou bem... ferido.
Pegou os discos da mão do amigo e saiu.
Silencioso, seco, sem bater a porta...
E sem final feliz.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Maré
Tem mais presença em mim o que me falta.
Manoel de Barros
Eu não sou um mártir.
Não sou. Não sou.
Só quero carregar nessa vida minhas dores. E não é atitude egoísta, é preservativa.
Só dói para quem ama.
E a dor - à exceção dos masoquistas - não é apreciada. Dor é menos.
Vida é uma mulher má. E ela reserva as ingratidões mais belas. Essas palavras saem com dificuldade, tenha certeza disso.
A incomunicabilidade acaba com tudo, j'ai dit isso antes. J'ai dit je t'aime?
Onde eu posso esconder a dor? Dor é menos.
Estou preso numa bolha de falsos sentimentos, de desejos reprimidos. E ela vai estourar. Já aconteceu até, mas tenho um delay para isso. Não quero chorar em travesseiro. Choro assim, em pé. Como bom mártir que não sou.
Fale comigo. Fale conosco.
Estou como um gato. Me molharam (com água fervente). Agora tento encontrar um refúgio contra chuva e pessoas más. Lamber as feridas às vezes funciona melhor que um merthiolate...
Sete vidas transitando entre a lama e o caos.
[a cidade é o mangue: abriga os homens-caranguejos que vão do lixo à lama]
Ai, dor é menos, alguém aí me entende? Olhe dentro de si.
Se eu pudesse voltaria no tempo, ah, se voltaria. Exatamente um ano. Cinco pessoas. Nada mais. Nenhuma preocupação, jovens sem destino, entrelaçados. A velhice me veio num momento tão ruim... ser velho é bom, o problema são as particularidades. Elas ferem. Me fazem ranzinza. Dor é menos.
Eu não sou um mártir.
Dor de carregar em apenas 20 anos a vida de todos ao meu redor. Isso não é normal, e não é um carregar poético, do tipo sonho-francês-verde-e-vermelho. É crucificação. Me crucifico.
Terei libertação? Terei chão? Ou só pedras para remover?
... People you've been before that you don't want around anymore
É culpa do acúmulo. Tempo, trabalho, pensamentos, silêncio, pessoas. Ponha-me na balança.
Se doer - por amor ou por desprezo - é porque pesa (e lá vem o Leo de novo, contando o peso dos meus amores).
Sinto que estamos vivendo um momento diferente. O passado é um animal grotesco.
Estou tentado expor a ferida. Accio. Minha sorte é ter um Acco anônimo - sincronizado - para ajudar. Quanto menos souber, melhor. [Tua pele, tua luz, tua juba]
Qual o diagnóstico para um looping eterno de Elliott Smith? Não quero terminar em um banheiro com Needle in the Hay... É sincronismo.
Anacronismo.
"Vestindo roupa de mergulhador, ele visita antigos cômodos, e desperta antigos sentimentos outrora esquecidos. Pessoas passadas, e revisita seu eu.
Suas lágrimas se misturam à água do mar. Imperceptíveis."
[pausa ad infinitum]
Perdi meu caminho.
Muitas coisas me faltam, muito além de um drink, ou um amor. Preciso ir além das terras estrangeiras da loucura alcoólica.
Há algum modo de recolher todos os pedacinhos de vida que larguei? Quero matar minha vulnerabilidade.
Hoje é sexta-feira, não quero, te indico alguém que queira.
Prefiro a cegueira do coração à visão perfeita dos olhos. O que não me prejudica só me aviva.
Menos amigos, menos dor. Daqui a pouco volta tudo ao normal, prometo, sim? Fotografia de mim. Filmes de mim.
Comer jujubas coloridas ajuda a ficar feliz. Ou se é jujuba, ou se é amendoim.
Paçoca? Não.
Só existem dois tipos de pessoa: Maria Antonieta ou Joana D'Arc. Sou Martinho Lutero.
O que acontece é que ao portar-se como você, está tudo bem. Aí alguém vem e lhe dá um espelho. O que você vê não é bom. É ser alguém que não você é pior ainda, é vergonhoso. Memórias gestaltianas. Dá vontade de tomar banho de lua, de não sair da cama. Vontade de terra amiga...
A Terra é má.
[Angeles entra aqui]
Não minta para si mesmo. Se eu lhe prometi palavras, são para ti, não para outrem. O trem é nosso, passagens. O acordo também. E meu desejo é acordar ao seu lado ou sentar-me diante de você em uma poltrona, no fim da noite, à luz abajuresca e ver aqueles olhinhos escurecidos sorrindo-me mais que boca. Será o meu elo?
Pecados à meia-luz. E eles viveram felizes para sempre.
Não se identifique comigo, é uma farsa. O fim não é o fim do mundo, nem do fundo. Findo aqui por ora.
Post-scriptum
Só um último desejo: dormir.
Dormir, sonhar e acordar com uma nova cabeça. De preferência boa, grega e pacífica.
São muitas memórias, muitas sensações. Tratar de todas elas ao mesmo tempo provoca essa catástrofe, esse caos controlado. A melhor coisa é ir ao poucos esvaziando o peito. Se eu pudesse iria de uma vez. Assim... pan pan pan buh!
Brilho eterno de uma mente sem lembranças.
onda vai onda vem onda vai onda vem onda vai onda vem
Ressaca. Catarse.
Tudo que não me lembro não me dói. Dor é menos.
E eu sou mais do que isso.
Sou mais do que mentiras.
Amém.
Vai saber se olhando bem no rosto do impossível (o véu, o vento, o alvo invisível) se desvenda o que nos une ainda assim?
Marcelo Jeneci
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