Din! din!
A campainha toca. Ainda funciona.
Raul corre para abrir a porta, gira a maçaneta e dá de cara com Bernardo - há tanto tempo não o via... Grata surpresa!
Os dois se cumprimentam como nos tempos de faculdade, nada mudou. A não ser a barba por fazer do Raul, e os cabelos mais desgrenhados do outro. Detalhes.
- Então, cara, vim buscar aquele meu disco do Velvet... Tô precisando dele, Raul...
- Ah, claro, vou buscar, acho que está lá no quarto. Fica à vontade. Pega uma bebida na geladeira.
Bernardo aceita a bebida e abre a geladeira, encontrando - além de um guaraná - prateleiras completamente diferentes de quando morou ali: alimentos e tons outros. Mudança.
Volta à sala, senta-se no sofá e respira. Num súbito aqueles cheiros tão conhecidos lhe sobem às narinas. Tudo parece voltar, toda a atmosfera tão familiar... E junto lhe vem a melancolia nostálgica típica de coisas que não voltam mais. Ah, como eu era feliz...
E assim, o passado (que todos sabem ser um animal grotesco) trouxe de volta aquele pufe azul com um pequeno furo no canto direito... O relógio Dalínesco meio torto na geladeira... Nossa, como se esquecera do James Dean no porta-retratos tríptico? Objetos de afeição - que contavam histórias. Boas ou ruins, mas sempre importantes no contexto geral.
Bernardo ouviu aquele miado tão gostoso vindo do quarto, misturado com um afro-samba do Baden. Melancia veio desfilando direto ao colo do amigo-dono, toda carente e dada às carícias. Os pelos dançavam entre os dedos dele, como ondas entre rochas na praia. Ela se deitou entre suas pernas, e dormiu.
Aquele momento simples valeu por toda uma vida. Segundos preciosos de algo que já não lhe pertencia.
- Nando, acho que estou com teu Cinema Transcendental também, espera que já entrego os dois! - gritou Raul no quarto.
E toda a magia da memória esvaiu-se sem piedade. Não havia Melancia, Baden Powell ou pufe azul. A cor desbotada do presente estava ali, o aroma da felicidade se fora. Estava novamente só com sua solidão.
A não ser pela estante. A estante continuava intacta.
Aquela estante branca... talvez a única coisa que compraram juntos. Repleta de livros de arte, cinema, fotografia... Alguns discos bem tímidos no compartimento inferior, outros CD's meio perdidos... A organização milimetrada do Raul, as cores desenhadas por ele mesmo... a estante representava os quatros anos que passara ali. Quatro anos de maré. Quarenta e oito meses em êxtase, boêmia e verdade. A verdade valia por tudo.
E a verdade estava ali, meio empoeirada, mas (no) presente, no instante, na estante.
Bernardo sentiu a necessidade gratuita de tocar em tudo aquilo, para poder realizar em sua mente, tocar para ser real. E no leve passar dos dedos em lombadas calejadas, foi difícil segurar o choro. Choro esse guardado entre as palavras outrora lidas, outrora recitadas. Choro de quem não o fez quando ainda era possível arrepender-se. Choro engolido com o tempo.
- Nando, tu está bem?
Raul o olhava perplexo, sem entender bem a situação toda. Se olharam por três segundos. Aqueles três segundos em que você deseja voltar, entender o erro, refazer o caminho. São três segundos onde as horas pedem descanso e os ponteiros apontam para o número dois em vez do um. Três segundos cujo alguns erros podem ser postos à mesa, mastigados de novo com certo ardume, com certo receio. E se meu final fosse feliz?
Um Bernardo marejado (enseado) respondeu:
- Estou bem... ferido.
Pegou os discos da mão do amigo e saiu.
Silencioso, seco, sem bater a porta...
E sem final feliz.
1 zascandil:
nos olhos do desassossego existe um sonar. o sonar, incessante, repete seu árduo trabalho por incontáveis horas; não descansa: procura,caça e cerca os momentos que não existem. o nobre senhor que toma o nome de desassossego guarda em si o sonar da culpa.
acredita-se que vasculhar a culpa em detrimento das infinitas posições espaciais existentes dentro de uma perspectiva, seja algo tolo. na verdade, o desassossego tende a relevar essa qualidade: aquilo que retira a segurança da figura humana é a culpa - e escondê-la tornou-se uma motivação obscura de quaisquer desejos explícitos.
mesmo com os ardores de uma demonstração vergonhosa, o sonar continua a procurar pela culpa. aquilo que tende a procurar, também tende a esquivar. a culpa não pode ser realizada; o viés das destrezas equivocadas nunca se concretiza.
agora, o sr. desassossego descobriu-se príncipe. não carece da almejada "virtu", nem da carente "fortuna": essas qualidades maquiavélicas apenas conseguem incitar o paradoxo: o desassossego nunca foi paradoxal. o mesmo, é filho de um rei de nome "prazer". o prazer, em sua dantesca magnanimidade, é filho do medo - um rei ainda mais poderoso.
não nos carecemos entender a trajetória familiar da insegurança humana: ela sempre desembocará no medo. e mesmo o medo, em sua eterna sabedoria, soube traduzir sua linhagem na sublimação da culpa. tudo funciona na plena harmonia das constelações equivocadas. nada se desalinha, tudo se completa.
então, tudo se faz presente nesse inextricável colar de pérolas: o prazer melancólico que sustenta a culpa da perda é ,nada mais, do que o medo travestido nas qualidades de seu filho. ainda assim, a perda torna-se "necessária", visto que sua culpa não mais existe.
engolimos o sonar da sobrevivência, para perecer no comodismo do desassossego. não saciamos a dor, pois ela não apresenta culpa: apenas um doce paladar de trufas, e sangue materno (:
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