terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O coração e a pena

Eu tinha algum motivo relevante, já não me recordo.
São tantos detalhezinhos que eu acabo me perdendo na grande história. Talvez seja melhor.
Me parece como aquela tarde outrora, em que eu estava dentro de um ônibus, e o vento corria solto na pele anteriormente molhada por aquela água mineral, puríssima. Olhei ao céu e lá estavam todas as cores inesperadas, e também os sentimentos desejados. Às vezes esse misticismo gratuito vem à flor da pele, me derruba de toda urbanicidade típica, de toda lógica. De extrema importância isso, saber quando pode-se deixar levar pelo irreal, pelo mágico, pelo não-confirmado.
Não quero divagar muito, meu intuito é usar a balança. Apontar o tempo ido, o ano passado.
Sim, é possível a metamorfose. Metamorfose, repito. Porque a mudança não equivale à carga da metamorfose: o poder em trazer consigo tudo já vivido e ainda o novo. Sábio era Raul.
E metamorfoseando por aí lá vão-se os meses, os (falsos?) amores, os desafios, problemas, risadas... pessoas. Nós evoluímos? Nos desenvolvemos? Talvez.
Me encontro mais no talvez do que nas certezas.
Ódio poruns amor poroutros.
[amor esse sempre caçado nos lugares errados]
Ai, Dindi, se tu soubesses...
Lembrar das tardes de divagação, olhos ao teto. Lembrar das tardes de catarse, boca profana.
Lembrar das noites frias, madrugadas niilistas, manhãs sexuais. Lembrar das quatro estações, do inverno assassino, do choro gatuno (dos gatos todos e miados muitos). Manhattan, Paris, Quebec, Reykjavik, Porto Alegre. Invento cais e não sei a hora certa de me lançar.
São tantas lembranças de um tempo novo... a seleção acontecerá, gradativamente.
Houve felicidade, houve dor, é de praxe - nenhuma novidade. Houve perda.
E vem aquela dorzinha em formato de vela, lá no finalzinho do peito. Ela caminha devagar, chora cera. A minha atenção só pode ser desviada se me fecho a tudo, ouço a neblina pululante e eis que se fazem matéria as árvores (ladras de minha falácia) e os dentes (doadores do meu ar fálico).
Primavera entre os dentes.
Há também o horror. A contra-evolução das espécies: o ódio generalizado, a repressão encravada, a língua afiada. Enquanto isso, eles riem de nós. E eu me envergonho dentro de mim. Olho ao teto.
É a crise da beleza, degradando-se como fruta podre. Germinando o fungo. Eu como o cogumelo da experiência, do real extremado.
[faz-me mal, faz-me mau]
Muitas foram as oportunidades, os encontros comigo mesmo. Pude observar-me melhor, cientificamente falando. Antes da palavra não-dita houve a observação minuciosa de vontades e quereres. Ai de mim que sou tolo, sou tão pouco, perto do meu eu maior.
Acredito nele? Lá me vem o talvez novamente.
Tudo é resultante de uma longa e exaustiva brainstorm natural, que me levava ao papel e à caneta de forma quase inconsciente. Foram dias, semanas e meses em memórias não-vividas, flashbacks futuros (flashforwards?) e muitas palavras amigas-passageiras. Se pensar desta forma, o que me parece é uma coleta (ou colheita) de passarinhos mortos. Sim, mortos, pois quando vivos os deixei voar alto demais. Agora eles não cantam mais - perderam o valor entre aviões e nuvens densas.
Meu trabalho agora é fazer um grande funeral de pássaros mortos, talvez encontrando carne fresca dentre dentes de alguns, podridão dentre outros. Só é preciso ligar a chave que me move.
Saia, saia. Ela me disse. Saia, saia.
E quando eu vi, já me encontrava alucinado pela falsa baiana, pela pimentinha - mais do que o aceitável. E como tudo é liderado pelo caos, fui de encontro ao impávido colosso, o regente sem face. Ainda me encontro neste estado calamitoso, embora agora eu esteja atento e forte. Mais do que no instante convidativo de "saia, saia". Cortem-me os cabelos, relembre-me todo o resto. Não duvido nada estar em meu momento de "relembrar" todo o plano superior. Sentir-se em casa, como diria alguém. Estou voltando para poder tomar meu lugar de direito, como rei desmemoriado relembra o rosado tímido do rosto da esposa/rainha. A única tristeza nisso é ter mais de vinte anos, vinte muros.
[o sangue jorrando pelas veias de um jornal]
O eterno-retorno do começo, como num certo livro... "lá e de volta outra vez". Cicatrizes para saber que o passado foi real...  E a ciranda fica cada vez mais distante do que era meu arquétipo de perfeição: as chuvas de verão retornam (metamorfoseadas) e as brincadeiras de quem não sabia o que era viver vão sendo desbotadas, as opiniões dilacerando, os beijos destroçando, os abraços vão partindo. Vão-se as pessoas, fica-se a presente ausência. É tudo dor no final. Ai, meu coração vagabundo...
No âmago de tudo, suponho que minhas memórias são como um xilofone, ou um pianoforte: algumas teclas são esquecidas temporariamente, mas sei que voltarão, cedo ou tarde. E junto delas virão gostos agridoces e maresias oculares, talvez. Vou abrir a porta para tudo que entrar deixando a hostilidade no capacho lá fora. Que venham as novas estações.
E os mistérios necessários para me navegar. Afinal, viver é preciso...
Findo por aqui, por ora. Tirando a poeira de quem me acompanha sempre na batucada da vida, companheira de trens azuis idos e ainda porvir.

As coisas estão tão esquisitas hoje em dia, que a gente… incrível… a gente anda ressabiado de dizer que gosta das pessoas. Então, a gente inventa coisas, entende? A gente inventa que é tímido e que não encontra jeito de dizer. A gente inventa que está ocupado e que um dia vai, sei lá, vai ter tempo de sentar e conversar. Aí, de repente, você se toca que não tem mais nada pra ser feito. É tarde.

Elis Regina


Meu coração e uma pena na balança.
Quem pesa mais? Qual é a verdade absoluta?
Pecados não-correspondidos, sempre compartilhados.
Sinal fechado.
[por favor não esqueça não esqueça não me esqueça adeus adeus adeus]

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