Tem mais presença em mim o que me falta.
Manoel de Barros
Eu não sou um mártir.
Não sou. Não sou.
Só quero carregar nessa vida minhas dores. E não é atitude egoísta, é preservativa.
Só dói para quem ama.
E a dor - à exceção dos masoquistas - não é apreciada. Dor é menos.
Vida é uma mulher má. E ela reserva as ingratidões mais belas. Essas palavras saem com dificuldade, tenha certeza disso.
A incomunicabilidade acaba com tudo, j'ai dit isso antes. J'ai dit je t'aime?
Onde eu posso esconder a dor? Dor é menos.
Estou preso numa bolha de falsos sentimentos, de desejos reprimidos. E ela vai estourar. Já aconteceu até, mas tenho um delay para isso. Não quero chorar em travesseiro. Choro assim, em pé. Como bom mártir que não sou.
Fale comigo. Fale conosco.
Estou como um gato. Me molharam (com água fervente). Agora tento encontrar um refúgio contra chuva e pessoas más. Lamber as feridas às vezes funciona melhor que um merthiolate...
Sete vidas transitando entre a lama e o caos.
[a cidade é o mangue: abriga os homens-caranguejos que vão do lixo à lama]
Ai, dor é menos, alguém aí me entende? Olhe dentro de si.
Se eu pudesse voltaria no tempo, ah, se voltaria. Exatamente um ano. Cinco pessoas. Nada mais. Nenhuma preocupação, jovens sem destino, entrelaçados. A velhice me veio num momento tão ruim... ser velho é bom, o problema são as particularidades. Elas ferem. Me fazem ranzinza. Dor é menos.
Eu não sou um mártir.
Dor de carregar em apenas 20 anos a vida de todos ao meu redor. Isso não é normal, e não é um carregar poético, do tipo sonho-francês-verde-e-vermelho. É crucificação. Me crucifico.
Terei libertação? Terei chão? Ou só pedras para remover?
... People you've been before that you don't want around anymore
É culpa do acúmulo. Tempo, trabalho, pensamentos, silêncio, pessoas. Ponha-me na balança.
Se doer - por amor ou por desprezo - é porque pesa (e lá vem o Leo de novo, contando o peso dos meus amores).
Sinto que estamos vivendo um momento diferente. O passado é um animal grotesco.
Estou tentado expor a ferida. Accio. Minha sorte é ter um Acco anônimo - sincronizado - para ajudar. Quanto menos souber, melhor. [Tua pele, tua luz, tua juba]
Qual o diagnóstico para um looping eterno de Elliott Smith? Não quero terminar em um banheiro com Needle in the Hay... É sincronismo.
Anacronismo.
"Vestindo roupa de mergulhador, ele visita antigos cômodos, e desperta antigos sentimentos outrora esquecidos. Pessoas passadas, e revisita seu eu.
Suas lágrimas se misturam à água do mar. Imperceptíveis."
[pausa ad infinitum]
Perdi meu caminho.
Muitas coisas me faltam, muito além de um drink, ou um amor. Preciso ir além das terras estrangeiras da loucura alcoólica.
Há algum modo de recolher todos os pedacinhos de vida que larguei? Quero matar minha vulnerabilidade.
Hoje é sexta-feira, não quero, te indico alguém que queira.
Prefiro a cegueira do coração à visão perfeita dos olhos. O que não me prejudica só me aviva.
Menos amigos, menos dor. Daqui a pouco volta tudo ao normal, prometo, sim? Fotografia de mim. Filmes de mim.
Comer jujubas coloridas ajuda a ficar feliz. Ou se é jujuba, ou se é amendoim.
Paçoca? Não.
Só existem dois tipos de pessoa: Maria Antonieta ou Joana D'Arc. Sou Martinho Lutero.
O que acontece é que ao portar-se como você, está tudo bem. Aí alguém vem e lhe dá um espelho. O que você vê não é bom. É ser alguém que não você é pior ainda, é vergonhoso. Memórias gestaltianas. Dá vontade de tomar banho de lua, de não sair da cama. Vontade de terra amiga...
A Terra é má.
[Angeles entra aqui]
Não minta para si mesmo. Se eu lhe prometi palavras, são para ti, não para outrem. O trem é nosso, passagens. O acordo também. E meu desejo é acordar ao seu lado ou sentar-me diante de você em uma poltrona, no fim da noite, à luz abajuresca e ver aqueles olhinhos escurecidos sorrindo-me mais que boca. Será o meu elo?
Pecados à meia-luz. E eles viveram felizes para sempre.
Não se identifique comigo, é uma farsa. O fim não é o fim do mundo, nem do fundo. Findo aqui por ora.
Post-scriptum
Só um último desejo: dormir.
Dormir, sonhar e acordar com uma nova cabeça. De preferência boa, grega e pacífica.
São muitas memórias, muitas sensações. Tratar de todas elas ao mesmo tempo provoca essa catástrofe, esse caos controlado. A melhor coisa é ir ao poucos esvaziando o peito. Se eu pudesse iria de uma vez. Assim... pan pan pan buh!
Brilho eterno de uma mente sem lembranças.
onda vai onda vem onda vai onda vem onda vai onda vem
Ressaca. Catarse.
Tudo que não me lembro não me dói. Dor é menos.
E eu sou mais do que isso.
Sou mais do que mentiras.
Amém.
Vai saber se olhando bem no rosto do impossível (o véu, o vento, o alvo invisível) se desvenda o que nos une ainda assim?
Marcelo Jeneci
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