Escrevo para ti. Dedico-te minha letra, minha caligrafia.
Dedico-te palavras para desenhar teu corpo nu, sem nuances. Sigo-te em meu canto, calado.
Deita-me em teus cabelos, canções aquosas. Deita-te em meu colo, cheiro de mar.
Maré.
Venha ao mar venha ao mar vem me amar vem me amar
Prepara-me o café: seja-me tal qual o amargo, o âmago, o amor. A paçoca e seu agridoce.
E se faça a saudade primeira. Grãos de areia em teu umbigo. Sopra-os: são poeira das estrelas. Faça teu desejo real, assim como busco em teu rosto a constelação perdida que me abandonou aqui.
Que venham encontros e cais. Meu porto seguro, meu porto alegre.
Desembarco meus anseios, presenteio-te de beijos-todos-abraços-muitos. Venha-me sem pudor. Abandona teu medo com fugacidade. Despreza o inadequado com coragem. Não diga adeus! Apenas libera seus outros eu's que me levam ao rio de sua mente, às coordenadas da sua verdade. Teu mapa-múndi. Sonos. Sou. Nós.
Só peço a exclusividade lógica (como 2 e 2 são cinco). A liberdade óbvia. O querer não mais do que esperado, dá-me tudo que não for forçado. O não-direito, o desapego.
Meu passo é teu, meu pulso é deste todo-poderoso sentimento.
Dosa-me com tua boca, gota por gota da anti-amargura dos dias, da solidão. Antítese do sozinho és para mim.
Caminhe sob meu sol. Arda com lascívia. Mata com luxúria.
E beija-me a boca tua com ferocidade própria de tua espécie. Seja leãozinho, seja tigresa.
Seja-me quente enquanto infinito.
E carinho enquanto dure.
[ama-me muito mesmo que por pouco tempo]
Ah, se tu soubesses...
... que o que te faz ser quase um segredo é ser-te assim tão [ ].
2 zascandil:
transparente é o pulso que segue inerte em seus pensamentos, durante a queda. os vidros acolheram a transparência; as linguagens, acolheram a transparência; o último dos deuses irá também acolhe-la. é de aparência tão atemporal, que os segundos se curvam em um movimento retilíneo de inexistência crônica. adjetivação inexistente, desse inextricável jogo de formas deletáveis.
“a transparência é como um deus, que quando quer, me toma todo o pensamento”... ela iria se reconstruir pela falta, e iniciaria um ritmado ventre de ilusões. tragaria a esperança, em troca dessa visceral patologia que roda em torno da crença. a transparência produz calma, pois é sopro, dentro da ventania dos amores – e isso seria um tanto quanto efêmero, se esta ainda não fosse, assim, “transparente”.
“Aqui na ilha há tanto mar,
O mar e mais o mar.
Ele transborda de tempo em tempo.
Diz que sim, depois que não,
Diz sim e de novo não.
No azul, na espuma, em galope
Ele diz não e novamente sim.
Não fica tranqüilo, não consegue parar.
Meu nome é mar ele repete
Batendo numa pedra, mas sem convencê-la.
Depois com as sete línguas verdes
De sete tigres verdes, de sete cães verdes,
De sete mares verdes
Ele a acaricia, a beija e a umedece;
E escorre em seu peito
Repetindo seu próprio nome.”
pois pode-se rodar nesse infinito círculo de nome “vertigem”: a repetição é a vontade de sair de qualidades também repetidas. é a repetição da sensação de liberdade que acaba gerando a culpa; é a repetição da sensação de alegria que acaba gerando a cegueira. mas só assim, perante a rede de flutuação metafórica, que é formada a transparência: o invisível, repetindo-se em sua própria formação, acaba gerando a pluralidade.
as mãos se dobram a vontade silenciosa do prazer. tudo em volta, voltando para o centro e brindado o início – se é que esse existe.
a transparência é o mais belo e primário dos paradoxos.
transparente... Dandara.
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