sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Das loucuras modernas - Parte II

Nico era um jovem desempregado.
Vivia com os pais, apenas estudava e desejava trabalhar, mas não andava se esforçando o suficiente para sair de sua atual situação. Era daqueles que atualmente são chamados "vagabundos".
Provavelmente morreria triste. Como todos nós.
Hoje era um dia atípico para ele - início de feriado prolongado e com data completamente cabalística, só para aguçar seus problemas com números. Por isso, cortou a faculdade de seus planos e foi assistir a um filme no cinema. Talvez melhorasse a sensação de incompletude. Mais tarde sairia para beber com sua melhor amiga, Alice.
Decidiu ver aquele filme de temática e qualidade duvidosas. Sem pipoca.
Sentou-se como usualmente na poltrona: sem tênis, com seus objetos pessoais na cadeira vizinha. E após muitas delongas iniciou-se o filme. Nico estava esperançoso.
E acabou-se. Coisa mais ou menos mesmo. Logo em seguida, o silêncio instantâneo.
De volta à cidade, respirou o ar frio e seco, e desejou comer algo. Busco por uma pizza, talvez um outro filme, quem sabe. Onde estava sua amiga? Cadê a livraria?
Enviou mensagens de texto. Comeu quatro queijos, sem bebida, com desconhecidos à mesa.
[O lado solitário da mesa: um, dois, três. Três tiros!]
O outro filme era caríssimo, quase preço de novela e nada de amiga, bebida. Desistiu.
Finalmente Alice respondeu.
"Desculpe, não vou mais.
Divirta-se!"
Nico parecia completamente desmoronado. Ainda perdido, tentou se recompor: ajeitou os cabelos e as roupas de forma discreta. Deve ter sido uma vingança, só podia, tudo por culpa do tal filme russo-paraguaio emprestado. Ele sentiu ódio e voltou para casa de cachecol nas mãos.
No caminho de volta, todos os olhos para si. Era Augusta, Consolação e Angélica. Se pudesse usaria os óculos escuros, mas era noite. O metrô nunca parecera tão frenético e acelerado. Casa casa casa, anota no caderninho bacana, casa casa casa, que mancada, eu poderia ter me divertido sozinho, casa casa casa. Verde vermelho verde vermelho. Bretodeau, Bredoteau. Ódio, ira e raiva.
Abriu o portão, em seguida a porta e logo foi de encontro a um envelope com seu nome - que lhe esperava. Era uma carta de Alice.
Mas como? A resposta vinha carimbada por Alexandre Dumas: 3 dias atrás.
Ainda frustrado, dirigiu-se à cozinha e sentou-se para ler as letrinhas à mão, típicas de mulher.
Era datada de meses atrás, Nico leu e releu, sempre pasmo. Afinal, em um mundo repleto de tecnologia por todos os lados, uma carta era um pedaço de sanidade perdida em um mar de futilidade, de superficialidade. Era um pedaço de amor físico - como uma paçoca.
As palavras flutuavam e ele achava magnífico o destino ter maquinado tudo desta forma. Chegara com ódio de Alice e de súbito, este sentimento negro em seu peito se tornara alegria. Era tão bom ler aquela maluquice em inglês, francês, português... Até o ponto em que um segredo dos dois fora compartilhado, ativando na memória tempos idos, felizes. Tempos em que as preocupações eram mínimas perto da amizade, do companheirismo, da chuva de verão. Nico não pode resistir às lágrimas. E as deixou percorrer o rosto cansado.
Chorou feito criança enquanto seu gatinho lhe subia as pernas, arranhando-as, sangrando-as.
Guardou novamente a carta no envelope branco - sem perfume - e decidiu abrir o champagne.
Ele bebeu motivado. A garrafa inteira.

Bêbado, suado e molhado de lágrimas, dormiu em sua cama, com medo de baratas. Não sem antes murmurar desconexo: "amanhã é dia doze".
E então ele sonhou com filmes gays e amigas que se tornam namoradas.

3 zascandil:

AN disse...

segue a faca pelo corpo, que nu, desliza vexames por entre os dentes. o calor das mãos sussurra preces esquecidas, em línguas inventadas; disfarça o riso. "nem sempre nos olhamos assim" - disserta o medo.
você conhece as dores da perda, não? ligeiramente emprega sua alegoria pelo sangue, lavrado com letras tíbias, e emanado pelo sôfrego sorriso-de-disfarçar-açoites. a dor é uma palavra figurativa ao prazer; ambos compõe a luxúria gramatical que se faz presente em certos excertos mentais.
ah! vê-se a lua cair sobre os mantos de vossa mão. doce, ela tenta penetrar o vácuo que existe entre a literatura e o erro. dispensamos as chagas dessa caminhada etérea ao nada, em troca dos milésimos furtos de solidão que você me proporciona.
no fundo, talvez, o alienista se faça concreto. serão presas as fases da lua e, posteriormente, a face de seu espelho.
são muito boas as suas loucuras (:

Anônimo disse...

Alice certamente te ama.

Henri B. disse...

Nossa, será que Alice ama o Nico?
Não é um texto autobiográfico.