sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Primavera em San Vicente

Há tempos tento buscar explicação para este tempo bom, este céu nublado... É um deleite poder sentir algo vivido há tanto tempo, também de certa forma, nostálgico. É a temperatura amena e o dia claro às cinco da tarde. Tarde ilimitada. É tempo de varanda, de violão e de limonada.
A vontade-mor é de procrastinação. Sombra e água fresca.
"Melody Nelson sentou-se à beira da piscina (de bolinhas rosa-psicodélicas) para ler o livro que seu pai havia escrito. Não havia sol, mas seus óculos a protegiam da luz infinita vinda do céu e do cloro. Um olhar atento provavelmente veria o vapor de água subir pela pele molhada, como terra regada em dia primaveril."
É tudo intensidade e inconstante por ora. Vêm trovões e relâmpagos, mas também vêm soís e arco-íris. E naquele instante, em que o sol aparece, você abre os olhos e percebe o quão importante é a fotografia e a primavera. Você quer os dois para sempre.
Você quer a vida intensa e inconstante.
Entrementes - depois da chuva - só resta a melancólica sensação de finitude. É como uma petite mort, que nos parece completamente sem nexo após seu ápice. É a vontade de estar acompanhado pela solidão. São as Terras Devastadas.
E eu abri os olhos em algum momento dessa viagem... O que vi foi corrosivo, quase fatal.
É estranhíssimo decidir partir sem fazer as malas. Assusta.
Basta respirar. E nenhum homem é uma ilha.
O que eu levaria à uma ilha deserta? Tudo que deixei pelo caminho. Porque a realidade é essa: você caminha e todos seus bens (imateriais, me refiro) vão sendo deixados pela estrada. E o caminho é longo, é quente e tem um aclive.
Ladeira da saudade.
A sensação é de viver em um forno. E ele vai esquentando, esquentando, até o segundo derradeiro, derrameiro. É tudo questão de opinião.
E no fim, o que me resta? Sabe, às vezes parece que eu sempre tenho as mesmas dúvidas. Será que mais alguém tem essa impressão? Você concorda? Escrever para repetir. E da repetição tirar a seiva do conhecimento. Ou não. Conhecimento. Conhecimento. Conhecimento. Conheci mente. Conheci a mente. Conheça mente. Repete-me.
Tenho medo de voltar repetido.
E para onde vamos depois que se faz as malas? De volta ao útero? Não quero. Mãe é decepção. Já decepcionei todas as minhas e demais.
Peço forças, se estou assim à essa altura, imagino daqui a anos. Força para não puxar a cordinha.
Piedade aos humanos. Piedade a mim. Piedade pela vergonha alheia.
E eu pensava ter começado bem, começado feliz. Felicidade é chuva de verão.
Lá de Montreal recebi a dádiva de entender que o passado é um animal grotesco. E que sou o autor de minha própria desgraça. E as coisas poderiam ser diferentes, mas não são. E nenhum de nossos segredos são físicos.
Detesto a primavera. A beleza fugaz de uma quinzena.
Primavera em San Vicente. Dualidade. Será que alguém me ouve?
Vou cortar tudo que não me pertence. É um crime olhar no espelho e ver um estranho. Não, não é exatamente isso. A profundidade do assunto equivale a algum líquido trifásico.
Ciúmes do que sou com você, não do que és comigo.
Quem comanda a maldição? Aposto que são gatos.
Não pedi para ficar. E não posso fazer as malas, é pecado.
A dificuldade de expressar me faz imaginar que a densidade é dolorosa, e as flores deixadas pelo caminho só pioram o cansaço. É o calor excessivo do forno, provocando a falácia. Me perdoem os mais conservadores. A intenção aqui é de complicar mesmo.
Fale comigo. Fale conosco.

A incomunicabilidade é a chave-mestra da separação. E a nossa aliança só ocorre se houver o distanciamento do tempo.
Ou seja, é impossível.

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