sábado, 15 de outubro de 2011

Das loucuras modernas

Alice era uma mulher independente.
Vivia sozinha, estudava sozinha, trabalhava sozinha. Era daquelas que atualmente são chamadas de "mulheres contemporâneas".
Provavelmente morreria sozinha. Como todos nós.
Hoje era um dia atípico para ela - feriado, nada exatamente útil para fazer -, talvez um jantar fora ou cinema a satisfizessem. Não por ora. Era quase um caso de "tédio voluntário".
Decidiu ver aquele filme russo emprestado do amigo. Sem pipoca.
Inicialmente achou estranho o encarte do filme - cópia pirata, gravado em computador e escrito à caneta permanente. Coisa vagabunda mesmo.
Sentou-se no sofá com as pernas em frente aos seios. Ligou toda a aparelhagem e relaxou.
Sem menu interativo, o filme iniciou-se sem delongas. Havia um homem bastante musculoso vestido de jardineiro. Alice estava curiosa.
- Patroa, o patrão está? Preciso conversar com a senhora - disse o jardineiro, terminando a sentença com um sorrisinho malicioso.
Ele fitava sua patroa - de seios fartos - avidamente.
Assim que percebeu o engano, Alice começou a se divertir. O filme era mais paraguaio que russo e não parecia tão inocente quanto uma aula de jardinagem. Nunca fora fã de filmes adultos, mas hoje era feriado e estava disposta a saber até onde iria aquele casal...
Enquanto isso, o jardineiro já despia a patroa infiel com os dentes. Ela, por sua vez, gemia escandalosamente, com mais caras e bocas que atriz de novela mexicana.
- Como se todas tivessem orgasmos tirando a roupa! - disse Alice para si mesma, divertida e sarcástica.
De repente, como uma doença que corroe aos poucos, o tal filme foi perdendo a graça, tão rápido quanto o trabalho oral da "patroa". E Alice, vendo aquilo tudo, começou a sentir uma espécie de asco envolto em ira. Assistia a tudo com um ódio cada vez maior e sem motivo aparente. Se pudesse, agarraria a cabeça daquela mulher e a esmurraria nove vezes no chão de mármore. Com o homem, apelaria a velha e boa tesoura de jardinagem.
E quanto mais o casal avançava em suas peripécias, maior ficava o sentimento negro no peito de Alice. Ela era superior àquela situação toda. Nunca chegaria em tal nível de imundície e falta de pudor como aqueles dois animais imbecis. Sim, dois animais, dois porcos lambuzados de saliva e lubrificante!
- Mais rápido! Mais forte! Mais! Mais! Mais!
Que brincadeira de mau gosto do seu amigo! Ele só podia ter feito de propósito, o idiota. Amanhã mesmo ela lhe devolveria o filme e terminaria a amizade. Cara estúpido, pseudo-intelectual de merda!
E o jardineiro trabalhava veloz. Vai-e-vem frenético...
Aquilo começou a ser extremamente vertiginoso para Alice e se ela não estivesse tão irada como estava, provavelmente teria vomitado no tapete persa sob o sofá. Maldição de filme!
E o pior era não conseguir se livrar daquilo, precisava saber até que ponto a ousadia dos vermes imundos iria. Sem se dar conta, lágrimas começaram a descer por seu rosto e pescoço. Tomara que aqueles dois contraíssem Aids! Sua mão segurava o controle remoto inconscientemente e por causa de suas lágrimas, não percebera a televisão aumentando de volume de forma gradual.
A situação se tornou praticamente insuportável logo quando a patroa-atriz-de-novela-mexicana-porca-aidética começou a gritar feito uma gralha descontrolada. Neste momento, Alice soluçava como se assistisse ao filme mais triste do mundo.
E chorava. A "patroa" gritava e o jardineiro fazia grunhidos ilegíveis - agora ironicamente parecido com um porco.
A esquizofrenia das atuais circunstâncias parecia tão venenosa e mortal que Alice gritou o mais alto possível, superando até mesmo o mais fabuloso e espalhafatoso orgasmo do tal filme russo-paraguaio.
E deu-se o silêncio, instantâneo.
Alice parecia completamente atordoada. Ainda perdida, tentou se recompor: ajeitou as roupas e os cabelos de forma teatral. Desligou a televisão e foi à cozinha, de encontro à sua vassoura - que lhe esperava.
Deu três varridas sem gosto no chão limpíssimo e decidiu abrir o champagne.
Ela bebeu desmotivada. A garrafa inteira.

Bêbada, suada e molhada de lágrimas, dormiu no chão frio da cozinha, agarrada à vassoura. Não sem antes murmurar desconexa: "amanhã é dia útil".
E então ela sonhou com seios fartos e jardineiros musculosos.

3 zascandil:

AN disse...

"Um, dois! Um, dois! E inteira, até o punho,
A espada vorpeira foi por fim cravada!
Deixou-o lá morto e, em seu rocim catunho,
Tornou galorfante à morada.
'Mataste então o Pargarávio? Bravo!
Te estreito no peito, meu Resplendoroso!
Ó gloriandei! Hosana! Estás salvo!'
E na sua alegria ele riu, puro gozo."
Iniciava por empregar o sentido literal ao nome - e por meio deste, deitava sobre o apoio alimentar, para satisfazer suas luxurias efêmeras. Portada do suporte, a dama atirava suas qualidades oníricas para entender o que se passava na sala: empunhava o objeto que deliberava o prazer, enquanto olhava com astúcia fértil para o resultado desse mesmo objeto. Era, assim, um veículo; uma troca de prazeres, à obtenção de delírios práticos.
Alice (e por que não?) gostava sentir entre os dedos aquilo que, dentro de suas frustrações, não podia desfrutar. O objeto refletia sua dor, qualificando-a em um fragmento masoquista e ambíguo. Fazia aquilo em silêncios breves - não podia deixar de balbuciar o frenesi.
Iniciava, então, a movimentação daquela protuberância única - talvez fálica. As mãos movimentavam-no freneticamente. Ela gerava uma compulsão monstruosa. Repetia os movimentos várias e várias vezes: mergulhava o objeto para baixo, dentro de sua representação gastronômica, e voltava-o para boca. Ao chegar aos lábios, Alice não poderia conter a entrada profunda daquilo que carregava seu deleite: ele conhecia seu interior; sua boca; sua cavidade livre.
Derramava dele o sulco cândido que ela tanto esperava. O líquido perfazia o contorno de seu pescoço; deslizava sobre sua pele com carinho. O pote estava vazio; a fome repentina estava morta. Toda vontade tornava-se dor; todo o deslumbre, tornava-se pecado. A doce Alice, empunhada da colher que levara à sua boca todas as suas vontades alimentícias - que por ela sempre foram privadas -, agora usaria a ferramenta a fim de empurrá-las para fora de seu corpo.
Não há comida que destrua permanentemente a dor; as rosas sempre voltam a sua cor original.

Henri B. disse...

Alice, realmente! A pecadora da gula.

Preta disse...

tratando-se da Alice , já era de se esperar tamanha loucura!