Lá vem ele, todo de negro, com seu rosto rude escondido. Lá vem ele.
É o parisiense, é o veneziano.
Vem acompanhado de seu melhor amigo. Aquele a quem muitos detestam, poucos amam. O inimigo do astro-rei. O protetor da melancolia, da solidão e da arte.
Lá vem ele.
Traz consigo duas almas perdidas. Duas vidas já vividas, já desgastadas e desgostosas. Já era hora de renovação.
[Aqui não tem fênix para ninguém, apenas passarinho negro. Toda fênix quer crescer para passarinho negro.]
A primeira foi apenas uma frustração. Obediência, puerilidade e conformismo. Ainda bem que foi esquecida em algum trem para Alemanha... A segunda foi a libertação: o desejo, a descoberta e o terrorismo. Aqui tudo aconteceu e vai continuar acontecendo, pois tudo que aconteceu é nutrição. Aqui ele ganha olhos e pernas e braços e bocas. Aqui o demônio sente a paixão e chama os pais para um jantar velado.
[Prometo paixão eterna enquanto houver censura, descaso, julgamento e mentira! Every time you close your eyes!]
Panis et circenses. Uma, duas, três vezes! E na terceira, não há perdão (há apenas dor e sofrimento). Quem suporta tanta dor seguida, tanto sofrimento gratuito? Ele que não.
Já sinto o toque da marcha fúnebre.
- Sinto muito, morreu a caminho do hospital. Negligentia. Mea culpa.
Aí passaram-se alguns dias. Μελαγχολία.
E sem que ninguém soubesse, na aurora da noite, ele (re)nasceu.
S.C. é sua mãe, mas também é sua amante. Ela compartilha da paixão, mas não há com que se preocupar: sem pai não há Édipo. Sem Édipo não há crime.
[Por essa você não esperava, não é, Sr. Freud?]
O crescimento é meteórico, mas o sangue é ruim e incompatível. Não há aceitação.
Existe um eusounós ali dentro, ele protege ambos, há certo nome para isso na biologia. Lembrarei depois do coito. Graças pela vida dos dois, afinal um ensina ao outro os vertiginosos caminhos para a idade avançada. Sem quedas!
Esqueci meu pudor em casa.
Taça de vinho e Chet Baker agora, que tal?
[pausa]
Lá vem eu, escondo meu rosto porque meu amigo está comigo, e ele me pede isso, e chama a chuva.
Minha mãe está atrás de mim, não me procura porque sabe onde me encontrar, ela apenas me vigia e se sente atraída por mim. É voyeur dos meus pecados, voyeur da minha incomunicabilidade.
Corro devagar, o mais rápido que posso. Aquele olho estroboscóbico me persegue. E eu não sei se gosto, ouço algo (é uma música), mas não sei de cor. Tudo é verde, é vermelho, é azul e é amarelo. São cores cinzas, cores desbotadas, cores horríveis. O tempo é azul. Azul da cor do seu vestido. A cor dos seus cabelos: amarelos. E vermelho é tudo aquilo que dói. É o sangue no calcanhar. É mercúrio.
Mercúrio cura todas as feridas. Todas. Eu sinto isso.
Mercúrio.
Mercúrio.
Sinto a velocidade diminuir. É mercúrio.
A primeira foi apenas uma frustração. Foi Mercúrio. Foi Hg.
A mãe má. O filho Virgo.
Adaptação. Mercuralia.
Pronto, acabou. Foi rápido, porém doloroso. Assim que é bom.
Agora esqueça tudo o que viu, fases hão de vir. E que a dualidade o permeie por toda a eternidade do ser.
1 zascandil:
palpitante, o relógio completa voltas infinitas, em direção a uma circunferência nunca abatida. não se cansa como uma válvula humana: está ali para retomar o caminho de um compasso, e realizar o desespero temporal humano. milésimos, segundos, minutos, horas e anos... 5 milhões de anos. quando o asco dessa volta chegar às suas orelhas, saiba que meu fim encontrou seu cume: o primeiro corpo-celeste a ser engolido pelo deus antiquado será mercúrio.
mercúrio já conhece o trajeto de sua órbita; Mercúrio controla a redoma ancestral de seus passos. mercúrio sempre soube de seu tempo.
guardar a fome quadrúpede da tristeza, e tratá-la como uma ostentação, sempre foi o delírio desse planeta. a melhor forma de irradiar seu domínio - protelado pela estrela magistral - é guardando o sulco de pavor melancólico.
houve, porém, que as danças divinas se execraram em um manto de fervor inesperado: mercúrio olha para fora da sua circunferência; adianta sua rejeição ao nada, e observa o seu espelho. dentro de translações mitológicas, a aurora astronômica guardou em Hermes o poder de dançar com mercúrio. o único momento em que os deuses unos se encontram em um sutil gracejo; um beijo cego.
as projeções paternas, datadas pela cólera da psicologia moderna, dormem no encontro da unidade plural. Édipo ateou fogo a si mesmo, para provar de um enigma que comprovava sua antropoformia. Hermes não pode queimar a si, pois encontrou seu enigma em outra forma astral. as especulações de extensão paterna suicidaram-se com uma taça de vinho novo.
nasce o verossímil acorde da necessidade imortal, por uma busca de pálpebras mortais. o destino fétido é tão bem aceito, que até o trajeto de um planeta pôde ser encaminhado ao desleixo. a proteção vive o filme das teorias massacradas por correntes colossais. tudo isso, entregue ao breve prazer da palavra; e o estranho contentamento pelo aparente desconhecimento.
o jantar de Platão teve de ser adiado: os pratos foram queimados e os convidados foram acusados de uma hipocrisia imensurável. os dois deuses não mais precisavam acolher-se a um contexto – visto que o vento nunca o tem. o orgasmo desse sentimento mora no simples ato de cancelar a estagnação: os ícones desse elemento etéreo aprenderam a matar demiurgo, e recriar um universo – desconstituído de quaisquer representações concretas.
a arte da observação já nos rende delírios. o toque é completo pela teoria; é vivo dentro da palavra. traçamos vestígios incompreensíveis de um sexo efêmero: fizemos o desligamento da rota, para tornarmos um; e depois, voltarmos a ser dois.
o visco da melancolia, mostrou-se átomo – não mais necessário. meu lar é orbitá-lo, virtuoso Hermes (:
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