quinta-feira, 21 de julho de 2011

Quenestu

Não sei qual o nome disso, desta coisa sentida há dias. Sentimento de estar só no mundo, de não ter perspectivas futuras, de não pertencer, não existir.

Há muito que eu não me drogava como agora. 80% do dia com drogas. Não faço mais nada. Só tenho três lugares na memória: quarto, cozinha e banheiro. Não sei o que é dia ou noite. Existo apenas para ver os créditos.

Será mesmo saudável essa rejeição à vida? Falta ar novo, gente nova. Cadê a literatura para me salvar... ou a música? As artes estão enfraquecidas. Ecos. Tudo está derrapando, até na escrita. Escrevo algo tão pobre e ainda assim me é profetizado o pingo de tinta na testa! Talvez seja a única arte que realmente me pertence por completo. O domínio da língua e, consequentemente, da busca indefinitiva e infundada por respostas. Pode ser uma profecia, embora antes de tudo seja uma maldição... já dizia minha mestra.

Onde estão os seres pelos quais eu tanto profano a vida? Onde estão aqueles hedonistas que me conduzem por lugares proibidos, sentimentos fora de moda? Eu não sei, todos desaparecem. E eu morro sozinho, porque é isso que realmente acontece: no fim, a gente morre sozinho. O medo de estar só é o medo de morrer. Queria ser como os tolos: não me importar com nada nem com ser vivo. Fechar os olhos diante da falta de quem mais faz falta.
Não consigo.
Assim como é aterrorizante lutar contra aqueles espíritos que retornam e no fundo você quer destruir, ferir, amaldiçoar e torturar. Na hora só aparecem sorrisos, aceitações e bons sinais. É tudo um erro. Viver é um erro, não é um filme.
Por fim, aquela sensação de solidão é amplificada pelo sentimento de desconhecimento: dos outros por você, de você pelos outros e do eu. Ando me estranhando ultimamente, como se o ser que aqui pensa/escreve fosse outro que não eu. A vontade é de largá-lo, perguntar rudemente "quem és tu", coisa do tipo. Mas está difícil. Desencontros instantâneos de uma pessoa já adulta e que pensava saber um pouco de si. O problema da vida moderna é esse: a falta de comunicabilidade do eu. Me sinto um estranho conhecido. Saudades do que é ingênuo. Saudades de não precisar afirmar conhecimento e de não sentir falta da falta de conhecimento dos outros sobre mim. Afinal, o cerne do questionamento todo é isso: ninguém tem o conhecimento de quem sou eu. Qual a cor dos meus olhos? Minha cor favorita? O que me deixa feliz? Qual meu sinal de mentira? Quais são minhas manias? Pois bem, superficialmente é fácil dizer o conhecimento, o problema é que de perto, ninguém se conhece. E lá vem a tristeza de novo... saudosismo de botequim.

Só me resta esperar passar devagarinho e sem provocar muitas alterações. Volto-me às drogas, porque na falta dos ditos amicis, é o que me resta, além do tempo e do vento.

[Maldito léxico!]

1 zascandil:

AN disse...

eu havia pensado em reconhecer seu texto às multiplicidades da laranja, e como os seus gomos se introduzem pela familiaridade da fruta, criando um entrelace único. visto, porém, que as drogas já afanaram meu último súbito consciente, e a intromissão das toxinas já percorreram todo o meu sistema nervoso – refratando-o em infinitos cubos -, eu decidi ser um pouco mais direto. espero que não se importe...
pela primeira vez eu irei erguer meus vocábulos a um tom suspeito, e enganá-lo pelos caminhos do seu próprio argumento. existe Brecht, e a sua faca de encenação. para ele, a mais-valia já consumiu todo o pão que estava sentado para tomar a sopa do jantar; para ele, não existem mais plantas azuis, e muito menos serventia deliberada. agora existe o medo. conforme o maquinário do medo, a exacerbação da sobrevivência deve sempre saturar o copo – cuja água já fora adormecida com o sal. vendo por esse lado, já nos concluímos portados do medo: um medo que traga, e nos agrega a uma família de sobrenome “Vórtice”.
o medo e a solidão, como você mesmo sabe, andam juntos. eu ainda poderia acrescentar, como num jogo supérfluo de palavras, que ambos são a mesma coisa – assim como todas as coisas podem ser apenas uma. a faca de Brecht, então, toma vigor e planeja o teatro de racionalidade. talvez a vida seja um erro, e talvez não seja um filme; mas eu poderia apostar algumas taças de vinho, e dizer que nós usamos essa mesma faca para cortar o pão de Dogville.
não existem paredes, não existe “além”: existe a racionalidade, e a consciência da atuação. nós só dançamos aquilo que nós é proveitoso, e só nos alimentamos daquilo que nos é eficaz. conhecemos todos os atos dessa farsa, e sabemos exatamente quando tudo isso irá acabar.
mas se preferir, use a faca para cortar um bolo, ou a minha garganta (: