domingo, 26 de junho de 2011

On the road

Sonhando acordado: criando uma história de segundos atrás.

Óculos escuros, na estrada há algumas horas. Pela frente apenas pedras e verde. Para o carro. O vento assobia nos ouvidos. É fim de tarde, pôr do sol.
Ela desce primeiro, cabelos esvoaçando ao contraluz. Beleza natural.
- Vem, vamos caminhar um pouco - diz ela, pegando a caixinha amassada de Lucky Strike. - Você continua dirigindo daqui a pouco. Vem.
Ele sai do carro, deixa a porta aberta. Caminham entre as pedras, no horizonte apenas raras nuvens, poeira e sol.
- Estou cansada, tudo que desejo agora é ir para casa, lavar minhas mãos e esquecer tudo.
Traga de forma longa e demorada. Passa o cigarro para ele.
- E você devia fazer o mesmo, querido Thomas. Tarde demais para arrependimentos.
Ele a olha daquela forma usual: infantil e ao mesmo tempo, consentidora. Apesar de se conhecerem relativamente há pouco, já havia aquela confidência, aquela simples troca de olhares cheia de significados. Sorri.
- Marion, estou dirigindo há mais de 5 horas! - diz Thomas, parando a caminhada, olhando ao infinito. - Podemos ir ao fim do mundo, se você desejar, mas no fim, tudo vai voltar. Em dobro.
Ela ri. O riso ecoa pela savana.
- Você fala como o Leon, ou o Frederico...
Thomas fecha a cara.
- Ficaria muito grato se não houvesse comparações, Srta. Galahad - sussurra, lhe passando o cigarro. - Porra, eles estão ferrados agora.
Carolin pretendia falar. Abre a boca, mas só sai fumaça tóxica. Está ressentida. Em vez disso, tragou novamente.
- Você faz tempestade por tudo, petit Gauthier! - diz ela, por fim, sentando-se numa pedra. - Desconsidero nossa aposta. Quer brincar? Vamos brincar de sermos adultos, que tal? Supere isso, estamos parecendo Bonnie e Clyde, pelo amor...!
- Chega, Marion! Voltemos para o carro, está ficando tarde e...
- Não, Tom! - grita. - Senta aqui comigo, só um pouco. Vamos ver o pôr do sol...?
Por dois ou três segundos ele se mantém de costas para ela e para o sol. Está cansado, é verdade, mas ela estava ali com ele, era o que desejara desde o início. A aposta estava correndo, eles estavam fugindo e o tempo estava passando. De repente, dá aquela vontade única de ouvir A Rose for Emily de novo, trazer tudo à tona, mudar alguns detalhes apenas. Entretanto ele sabia que o final sempre seria o mesmo... os dois ali, ela sentada na pedra, apagando o cigarro e pedindo companhia para um pôr de sol. Era o que devia ser feito e aceito.
- Tudo bem, mas chegaremos atrasados ao funeral - diz ele, envolvendo-a com o braço. - Eu sou capaz de desenterrá-lo para pegar o... hei, o que diabos você está fazendo...?
Marion tirava-lhe os óculos, admirando os estranhos olhos verdes do outro. Era capaz de arrancar ambos e guardá-los em um museu, para admiração eterna... Sentiu que ele descobrira seus planos malignos. Preferiu o caminho mais fácil:
- Serei sua para todo sempre.
- Qual é o seu nome?
- Não mude de assunto.
- Não mude, você! O meu nome é...
- Thomas, por favor! Ainda não estou pronta.
- Eu estou - e a beija.
Admiraram o lusco-fusco e o nascimento da lua. Logo retornaram ao carro, energias renovadas. Agora era apenas pé na estrada... A cidade ainda estava longe e podiam ser descobertos há qualquer momento. Viviam em risco e este era o alimento mais nutritivo que tinham. A aposta corria, Gauthier e Galahad ainda tinham chances de ganhar, e mesmo que não tivessem, algumas cartas ainda nas mangas. Marion liga o rádio e é isso que importa.
- Helter Skelter, baby!

3 zascandil:

AN disse...

O cigarro é formado por infinitas toxinas – as quais se apresentam de modo variado, e indiscriminado. As toxinas contemplavam o que era outrora o corpo de um vegetal, de significado virtuoso e soberbo. Agora, sem seu frondoso corpo, os componentes tóxicos vagam pela boca humana, organizando o caos da fumaça, numa retórica experimental.
Uma das mais importantes qualidades humanas é a necessidade de se achar a ordem, diante do caos. O que se pode perceber naquilo que não é humano, deve-se a essa mesma qualidade. Logo, tudo aquilo que existe, sempre se enquadra – mesmo na deriva.
Talvez Jack Kerouac lhe desse uma taça de vinho; eu lhe daria uma foto.

Henry disse...

Vinho, fotografia, um cigarro (?)
Très bien.

AN disse...

tudo isso é um carvão, dentro da fogueira de criatividade. um dia, a fogueira queimara demais, e a estagnação virá de modo forçado. ainda assim, é melhor acendê-la.