quinta-feira, 16 de junho de 2011

Contraponto

[Texto que deu origem ao curta Contraponto, de 2011]

A normalidade é a fantasia do tolo.
Em suas memórias de criança, apenas imagens embaçadas, tortas. Uma fase importante, porém descartável.
Em suas memórias de moça, decepções e alegrias sempre acompanhadas pela onipotência e independência. Na flor de sua juventude, a perda anda com a loucura.
[fuma o cigarro do hoje]
Em seus pensamentos de mulher, apenas um futuro e uma decisão: o ponto final - um casamento duradouro com a morte.
Antes, uma visita ao passado recente!
Na descoberta do mundo pela caminhada, pés no asfalto, a Noiva percebe a si mesma e aos transeuntes, porém está deslocada, avulsa dentre os seres que vivem. Caminha e ri, pois sabe onde sua respiração termina. Arrogantemente, se sente acima de Deus.
Também acima de Deus (embora por outros motivos), há o errante sem família, marginalizado pela sociedade. Corajosa, ela se aproxima dele e lhe rouba sábias palavras compactadas em livro.
Após um pequeno suicídio, que a lembrou de sua última petite mort, pôs-se a ler um excerto do livro que acabara de ganhar. O que seus olhos narraram foi um pequeno desabafo, vindo do fundo de sua mente, de tempos idos e esquecidos.

[um texto escrito por você há dois anos - em um momento de fúria - aqui]

"Belo", pensou ela. E após breve identificação, voltou a viver.
Havia uma graça quase masoquista em ter seus "últimos":
O último café
O último filme
O último palavrão
Agora, diante do espelho, após
O último banho
a Noiva estava pronta para o gran-finale. E a morte já lhe beijava a nuca.
Pôs-se a tocar
O último disco
[instrumental] em ordem de não ouvir palavras ecoando na mente durante o agonizante e derradeiro minuto final de sua vida. Embora instrumental, de fato palavras lhe ecoaram, interrompendo-lhe o belo momento do fim. E como num folhetim barato, vozes antes queridas a chamavam pelo nome.
E risos e bocas e sol lhe esquentando a pele, trazendo lembranças boas e tardes felizes e inesquecíveis.
Mesmo que sua memória afirmasse esquecimento, fora repentinamente enganada! Estava tudo ali, impedindo o ato cruel e injusto com todos que a amavam. Só restava agora pegar o telefone e trazer à tona todas aquelas pessoas, sentimentos e lugares empoeirados...
... Ela se deu conta de que finalmente o amor havia triunfado sobre a dor, a morte! O bem havia vencido e Deus resplandeceu sua glória sobre... NÃO!
Com atitude única e impetuosa, típica de sua personalidade, se matou.

Sem arrependimento ou consideração pelo mundo hipócrita!

4 zascandil:

Thiago disse...

Belo.

AN disse...

Existe a onda, onde uma profusão dantesca de imagens reflete o todo. Dentro do todo, existe também a inclinação à dissertação das coisas; há, então, o seu texto.
Em uma das mais simples classificações do cinema, ouvi que este era a “junção de imagem, ao som”. O cinema é, pois, nada mais do que isso. Às vezes deixam transparecer a ausência de um desses elementos – que facilmente se transporta ao “subentendimento”. A sinfonia cinematográfica é então completa com o preenchimento do dessa relação; e esse preenchimento é uma variável infinita, que acompanha qualquer definição artística.
Seu curta me deixou preenche-lo com um gosto monumental. Há nele uma saturação técnica, que me flutua à memória. O eterno entrelace de situações que conflitam com o objetivo final. “Contraponto” me pareceu um relato interno, de reflexões bárbaras com minhas células; tudo isso regado ao som que vaga paulatinamente, e contracena aos momentos de decisões vultosas.
Assim, a memória nunca se separa da ação, ou da invenção da mesma, haha.
Majestosas congratulações, perseguido geminiano.

Thiago disse...

Vergonha do meu minimalismo.

Henry disse...
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