domingo, 29 de maio de 2011

Jogos perigosos

Sobre o peso dos meus amores
Eu vejo a distância
Eu vejo os perigos
Eu vejo os outros gritando
Eu vejo um
Eu vejo outro
Não sei qual amo mais
Sob o peso dos meus amores

José

É difícil expor sentimentos, fácil é apenas sentimentalizar tudo. Criar situações, efeitos, frases, lugares, pensamentos... É facílimo cair na armadilha de Platão e mentir para si mesmo. Fingir que tudo acontece quando se quer e que tudo vem para o bem.
É facílimo.
É bom conversar com gente grande, que já se desenvolveu e aprendeu a nadar nas turvas águas dos sentimentos. Eu estou aos poucos aprendendo a boiar, porém cedo ou tarde, volto a afundar. É tudo questão de tempo e tempo é o que nós menos temos.
Foi nessa aula de natação que aprendi umas das maiores e mais procuradas respostas para a eterna dúvida do meu ser.
Se te amo, não preciso de você.
Entendeu?
Amo, logo não preciso.
É simples e conciso. Também é difícil digerir isso, mas vou praticar. E quem sabe amar melhor...
José Leonilson me entenderia. Houve uma identificação mútua entre nós dois. Muitas similaridades (psicológicas, artísticas, físicas), tantas que até me assustaram. Mergulhei em você e vi que outrora também fora um aprendiz, alguém que, como eu, tentava ainda boiar. Talvez você até tenha morrido tentando... mas durante o tempo que boiou, conseguiu guardar tudo na memória.

[pausa para um cappuccino, um folk]

Há tempos que eu não era arrebatado assim. Meu esforço gutural em desejar você sem precisar de você não vem sem motivos. Eu desenho seus olhos olhando para mim... eternos. E lhe faço carícias nos cabelos, e canto sons inéditos em teus ouvidos. Como não ser arrebatado por teu inverno acolhedor? Como não me deixar levar? Estou tentando, pois no mundo da imaginação, há mil pilares de alegria, mil pilares de dor.
E não posso (leia-se não quero) prender-te. Somos livres.
Sensíveis.
Não consigo desenvolver as linhas. Me perdi nos meios, nas entrelinhas do nosso belíssimo relacionamento temporal, ou como um dia ouvi...
[let the seasons begin]
Ninguém sabe ou saberá minha frequência quando ao seu lado. É tudo mágico, de uma infinidade de diferenças tão cabíveis, tão aceitáveis... que a efemeridade dos (poucos) instantes não destrói o acumulado.
Mas fujo da mensagem principal. Te mereço demais, te valorizo demais. Me dedico demais.
Queria eu poder quebrar o aquário. Derramar peixinhos dourados no chão e libertar os gritos (choros?) internos.
E prefiro dizer tudo isso nos olhos, na hora.

Leonilson me entenderia, com suas coleções, sua literatura imagética, sua máquina de escrever verde.
Queria me fazer compreender, com minha máquina de escrever verde, minha fotografia literária, minhas obsessões.

Vinte anos de poucas tentativas, muitas ilusões e hey, Lloyd, I was ready to be heartbroken.
Se ela estivesse aqui, diria: "pare, desista".
Se ele estivesse aqui, diria: "enquanto isso, tome um sorvete".
Se eu estivesse aqui, viveria uma bela lira suicida com o frio e a solidão.

Eu poderia ter evitado esse momento. Os dedos que provocam, a mente que não cansa...

Esses jogos perigosos
Não são guerra
Nem estão no mar ou no espaço
Mas por detrás de óculos
E um par de jeans

Leonilson

5 zascandil:

AN disse...

há, no mundo, uma zona tão profundamente devastadora -quanto desconhecida- que recebe o nome de "abissal". nela, tudo é fundo, frio e afótico: porém vivo. algumas criaturas abissais, ao encontrarem seus raros parceiros, acabam por se fundir, num abraço colossal que bani quaisquer possibilidades de reversão. um funde-se ao outro, para tornar-se unidade novamente.
o que lhe torna desnecessário, já não pode mais deixar de permanecer; o que lhe despertava amor, transmutar-se-á em ódio e, ainda assim, estará à sua unidade.

Henry disse...

Aleph: sempre trazendo deslumbres e medo!

Claudio Temochko disse...

sempre tive pra mim que pra escrever tem que amar, aprimorar e ter coragem. 5 anos não é pra qualquer um, mantenha a pegada.

abraço!

Beatriz Bitencourt disse...

Você sabe que segue as pessoas certas no twitter quando alguém indica um blog assim.

Henry disse...

Mui grato, Beatriz. Suas palavras até me animam a continuar!