Vestiu as meias de seda como quem relembra Taylor em "Gata em Teto de Zinco Quente". Os lábios vermelhos-sangue, a pele negra perfumada de gardênia e talco. Prendeu os cabelos de forma sensual e bucólica, deixando a nuca à mostra. O lusco-fusco já ido lhe indicava o momento propício para a caça. Apesar da roupa extremamente provocativa para tal temperatura, Lavigne vestiu um discreto casaco e reflexiva, porém poderosa, foi às ruas.
Seus sapatos repicavam no asfalto, e enquanto andava, seus seios fartos incitavam um fugaz frenesi aos motoristas que a ousavam ver através do carro. Um pequeno momento de deleite que para a Abelha Rainha só significava uma coisa: trabalho. Consequentemente, dinheiro. Não o fazia por prazer, apenas para saciar os posteriores desejos... avassaladores.
O primeiro cliente lhe veio como um namoradinho: a pé, com tulipas em punho e um sorriso encantador. Deu-lhe um beijo terno no pescoço e ofereceu o braço, para uma curta caminhada ao bistrô. Escolheram uma mesa ao ar livre, onde era possível ouvir um triste blues, que acabou ressaltando a tristeza no olhar de Lavigne. Acendeu um cigarro e após a profunda tragada, riu da expressão apaixonada de seu admirador.
- Garanto que não há razão para existir esse sentimento entre nós, meu querido.
- Vê alguma coisa? - indagou ele, surpreso.
- Sim - disse ela, tragando outra vez. - Vejo solidão, para ambos.
Depois de um suculento jantar, caminharam um pouco mais até o apartamento do namoradinho. Lá ele a teve, a idolatrou e a pediu para ficar. Ela aceitou o dinheiro e uma porta aberta para rua.
O segundo lhe buzinou por trás. Ao abrir o vidro, o hálito quente a alertou do nível de álcool. Talvez ele fosse um problema, não para Lavigne. Bêbados eram bônus: mercadoria barata, porém rentável. Entrou no carro e sem trocar muitas palavras, foram a qualquer motel duas estrelas. Ele a teve e tentou-lhe bater. Ela o cortou e lhe roubou a carteira. O trabalha terminara, pelo menos por ora.
4 da manhã, ela sentou-se no sofá já envelhecido. Acendeu um cigarro e chamou o gato com um estalar de dedos. Estava pensativa, sem sono. Trocou o disco por um filme do Bergman, o comprara havia três semanas. "Da Vida das Marionetes", um filme tenso, que prendera sua atenção e a chocou pela sinceridade e identificação. Após os créditos, vários minutos fitando o teto, tentando unir pensamentos, memórias e vontades. Dormiu com o cigarro aceso e o gato ao ventre.
No dia seguinte, logo pela manhã, visitou um sebo próximo de seu apartamento. Era um local simples e empoeirado, mas riquíssimo. Toda vez que ali entrava, uma súbita sensação de saciedade lhe tomava. Durante os setenta minutos que permaneceu no lugar, escolheu alguns títulos de psicologia, filosofia e literatura estrangeira. Ainda ganhou um disco de jazz, do velho dono do sebo, dotado de olhos azuis.
A vida era essa, uma simplicidade estranhamente bizarra. Seus dias preenchidos de solidão e arte, cultura e sexo. Tudo pelo "bem maior". Duraria apenas mais três meses, até o suicídio ao som de Chet Baker. Ponto final. Raras são as prostitutas intelectuais que sobrevivem à niilista e solitária vida urbana.
Nasceu Maria, como várias outras ao redor do mundo nascem. Viveu uma infância comum, uma adolescência perturbada, uma juventude saudosa e chegou à vida adulta de forma satisfatória. Mas lhe faltava algo.
Sempre solitária, tornou-se uma pessoa taciturna e introspectiva, presa em uma armadilha de excessiva autocrítica e reflexão. Seu único escape era através da cultura - única herança familiar. E embora herança, não havia muito para ler, ouvir, escrever. Sua origem era pobre e ignorante. Sem perspectivas saudáveis, seu último recurso foi dar o que - para os homens - lhe tinha maior valor: o sexo. Inocente, porém determinada, foi às ruas.
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