As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens nem aventuras nem novas descobertas.
Voltaire
Ainda vivo, embora desacreditado. Mudanças demais. Com arte. Sem trabalho. Com desejos. Sem indícios. Com paixão. Sem resposta. O tempo é uma brincadeira de criança: tão fugaz aos nossos olhos que quando percebemos, já acabou-se. Eu estava vivendo (?) minha vida e hoje estou reaprendendo a jogar o já antigo jogo platônico. Será? Será? Acho que não.
Sempre há alguns olhos claros no meio do caminho. Me embaraçam a visão, desaparecem com meu teto, chão e fico assim - desnudo -, procurando roupas para me esquentar no frio inverno da alma. Inferno mesmo. Pensamentos referentes: Será que estou fazendo certo? Não estou incomodando demais? Parecendo muito interessado? Será que o interesse é recíproco? Será que estou viajando? Indo pelo caminho correto? Meu "oi" é muito triste? Animado demais? Meus olhos me revelam? Minhas palavras, músicas, filmes? O pensar é meu primeiro inimigo.
Estou chateado comigo mesmo. Eu não gosto de me apaixonar, não gosto de pensar normalmente na paçoca, não gosto de quem fuma. Embora eu goste do toque (abraço apertado), do gosto do amendoim e dos olhos lacrimejados pela fumaça seca.
Sempre que leio algo escrito já há algum tempo, vejo como mudei para pior, como minhas letras "soam" ultrapassadas, clichés. Quero de volta aquele que em mim morreu. Sempre que fico doente, vejo quão fútil é a vida acorrentada a padrões sociais: emprego, estudos, carreira. Quero de volta a criança morta. Talvez eu precise continuar meu caminho de volta ao passado, de volta aos amigos da esquina, da tropicália, da bossa-nova. Mergulhar em águas profundas. Deixar-me levar. Pedir um tempo para esse tal de Roque Enrow (ou quem sabe afundar de vez com ele - tão querido?)...
Tudo que eu quero é a simplicidade das palavras não-ditas. Os beijos só pensados. Aquele sorriso que sempre me desarma. Quero a amizade do sol, das folhas de outono caindo. Quero a fotografia que imortaliza. Quero meu eu completo, dividindo essa experiência agridoce com quem ainda não aprendeu tanto, mas está no caminho (assim como eu, que não aprendi tanto, estou no caminho e penso que aprendi). Posso ter meu chá de volta? Posso ouvir a voz que me conta segredos sem nenhum sentimento embalsado? Preciso tentar.
Preciso aprender a ser só tendo alguém ao meu lado.
(Eu, sonhador, louco de amor)
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