Ela me veio em sonho.
Primeiro Ato
Era uma vez a Cidade.
Gigantesca, imponente e impotente. A Cidade era nebulosa e dormia em trevas, governada pelo Grande Ditador. As pessoas andavam com medo do escuro, e por terem esse medo como uma sombra, o Grande Ditador não iluminava as ruas, tudo era breu e medo. Todos os dias eram noites e as noites eram escuridão. O pavor de ver o escuro era a única sensação que permitia que todos saíssem de suas tocas iluminadas à vela para seus empregos e estudos. O sexo era proibido. Sexo é luz, visão e rebelião. O Grande Ditador não deseja que as pessoas vejam, o negrume lhe dá poder sobre todos e tudo. A sociedade da Cidade é branca e aprendeu a não enxergar.
Há também a Vila.
Feita de lendas, tradições e cultura arcaica, a Vila é proibida aos cidadãos da Cidade. As pessoas da Vila são pobres, menosprezas e marginais. Acreditam em Deuses, o que faz o ódio do Grande Ditador sempre pulsar ali. O Grande Ditador criou o sistema de restos para a população da Vila. Tudo que resta, que vai ao esgoto, segue até as bocas famintas que moram ali. A pele da Sociedade da Vila é escura, mais escura que o negrume poderoso do Grande Ditador. Eles enxergam, embora sejam cegos pela Religião. Eles têm luz, embora não saiam de suas cabanas: eles têm medo da chuva.
A chuva negra.
Segundo Ato
A Cidade e a Vila. Duas sociedades opostas. Um líder: o Grande Ditador.
E servos e soldados e pessoas. Uma pessoa diferente. O Homem.
Ele se cansou de ser liderado por um ser que não mostra seu rosto. Sim, o Homem é cego, mas ele veria o rosto do Grande Ditador, se ele mostrasse. Sim, veria.
O Homem se rebelou. Saiu para o trabalho como outros milhares, seguindo o odor das ruas, como ratos, uma grande fileira humana de seres sem identidade, sem faces. Ele seguiu seu caminho, O Homem, porém já estava preparado. Hoje seu sofrimento acabaria. Sua alienação terminaria.
Ele veria a luz e a Vila. Ele cortaria a cabeça do Grande Ditador.
A Mulher estava grávida. Seios fartos, firmes.
O destino de seu pequeno era grande, maior que o Grande Ditador. Para isso, entretanto, ela precisava enfrentar seus medos e encarar a luz, a chuva negra (que nem sempre estava presente) e caminhar para seu fardo, sua missão como Mãe Poderosa. Ver de perto o perigo.
Matar o Grande Ditador.
O Homem preparara coquetéis Molotov em casa. Agora os jogava para todos os lado. Antes de tudo, luz aos cegos. A Mulher tomara coragem e agora escalava o morro, aos 9 meses, como tantas outras mulheres da Vila. A faca entre os dentes, subindo o morro, sendo tomada pelo breu, em direção ao Grande Ditador.
Pandemônio.
Ato Final
A luz trouxe à realidade todos os moribundos da Cidade. Gritaria, explosões e correria para todos os lados. Cegos trombando com máquinas, barulho e fumaça. O Homem via vultos, estava claro o bastante para isso. O Grande Ditador ainda não aparecera, mas ele estaria ali quando fosse o momento. A Mulher já desistira de seu furtivo homicídio. Todas as pessoas da Vila saíram de suas cabanas, esquecendo suas crenças e olhavam para o céu negro e vermelho, já não tinham medo da chuva, tinham medo do Apocalipse, iminente.
O Homem viu o vulto veloz e barulhento que vinha em sua direção: o caminhão dos bombeiros, passando por cima dos corpos cegos que se atreviam a ficar em seu único caminho. Antes que fosse atingido, saltou com mãos jogadas para frente. Ele alcanço o banco do carona e tomou o volante automático nas mãos. Não sabia o que era pior: a autonomia da tecnologia ou a cegueira de um motorista. Antes de ter o mínimo de controle sobre o volante, atropelou mais quatro ou cinco cidadãos. Se mantivesse aquele ritmo, atropelaria com louvor o Grande Ditador.
A Mulher estava assustada. A fumaça tomara conta de toda paisagem morro abaixo e no céu caiam pequenas faíscas apocalípticas. Seu pequeno dava sinal de vida, de vinda: água escorria entre as pernas.
Era a hora.
O Grande Ditador começou a ver sua construção perfeita e rítmica desaparecendo. Gritava nos megafones da Cidade para todos terem paciência, esperarem pela ordem, pelo progresso. Terem calma e serem acomodados. Tudo voltaria a ser como antes.
Ou não.
O Homem, com seu caminhão-bombeiro desgovernado só escutava a voz do Grande Ditador, não sabia onde ele estava e nem mesmo onde estava indo. Só conseguia ver fumaça, fogo e gritos. Os gritos eram visíveis e feios. De repente, um muro alto, um muro, não, uma grade alta. Descontrole, desatenção. Acidente. Explosão. E água.
Uma chuva.
Tudo que eles viram foi a chuva.
A Mulher estava para ter seu filho em meio à toda confusão na Vila, as outras mulheres a olhavam e tentavam levá-la para dentro de uma das cabanas, porém o chefe da religião, o pajé, desejava o nascimento do pequeno ali mesmo, em meio ao caos. Profecia. Força, força, força, ele vem aí. Ele realmente vinha, quando houve uma explosão magistral, todos olharam para o alto e viram, sim, viram com olhos de terror, dor e incredulidade. A grade que os separava da Cidade havia sido arrebentada por um gigantesco caminhão rubro. E logo em seguida um homem surgiu da fumaça (das sombras). Devia ser o Grande Ditador.
Não houve tempo para descobrir. Gotas suculentas e malditas começaram a cair. Levou um ou dois segundos para todos da Vila perceberem o que era aquilo. Quando acordaram, correram o mais rápido que podiam para fugir da chuva negra, mas era tarde. Todas as grávidas gritavam e esperneavam no chão, sentindo seus fetos explodirem, ressequirem e derreterem dentro de seus úteros e placentas. A Mulher não acreditava em seus olhos. Todos aqueles bebês desaparecendo dentro de muitas Mães Poderosas. O terror mostrava seus dentes.
O Homem sobreviveu à explosão. Levantou-se tonto o suficiente para cair novamente e rolar o morro. Lá embaixo viu seres negros em meio à fumaça, correndo e gritando. Acreditou que fossem soldados do Grande Ditador. Levantou-se e caminhou entre eles, evitando o contato. Sabia que no fim de todos eles, encontraria o líder diabólico. A água do caminhão não duraria muito tempo, logo a fumaça estaria muito mais densa novamente. Era melhor matá-lo enquanto a visão ainda lhe ajudava um pouco.
Só o Homem sabia que aquela água não era uma chuva negra.
Só a Mulher não perdera seu pequeno. Ela era uma Mãe Poderosa.
Ninguém sabia que o Grande Ditador era uma invenção. Invenção tecnológica, religiosa... midiática.
Se Deus existe, ele tem uma lupa contra o sol.
1 zascandil:
Que texto ótimo!
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