As cores no prato branco são nutritivas. O amarelo, vermelho e verde prevalecem e sobressaem-se dentre os variados tipos de alimentos. O aroma é agradável, a luz está suave, difundida e rebatida pelas paredes de tijolinhos marrons. O garfo desce suavemente ao prato, recolhendo algumas gramas de alimento, como uma escavadeira recolhe a terra virgem. O talher volta à mesa, desta vez vazio: já deixou suas terras presas entre paredes alvas, um céu e um tapete vermelho, localizados na boca da mulher. A mulher. Leva novamente o garfo ao prato, do prato à boca, faz isso repetidas vezes. Ela espera pelo homem.
O homem. Ele pretende pedir sua mão, depois todo o resto. A mulher não sabia, ainda.
Portanto ela come, e come por dois. Está grávida. O homem não sabia, ainda.
As cores na rua são pastéis. Nada muito lívido, muito diferente de cinza e laranja. A noite traz o vermelho automobilístico, não agrada os olhos. As rodas correm. Aceleram. E param em frente ao restaurante.
A música ambiente é tão nova quanto uma senhora ao fim da vida. Há carne, dentro de bocas falantes. E vinho, escapando pelo nariz de desafortunados. Tudo com o sutil e já esperado ar de arrogância, de inteligência afetada e de dinheiro. Burguesia. O garfo alça voo novamente, porém antes que possa aterrissar, uma mão quente lhe toca o ombro. Ela se vira. É o homem, e a mulher o olha. Olhos famintos.
Ele se senta, olha-a com ternura: deseja que ela seja sua para todo sempre. E pede uma garrafa de vinho branco.
- Você está linda - diz ele, permitindo-se olhar para os seios da amada.
- Não mais do que você, docinho - diz ela, e sem perceber, derrama um pouco de água no decote.
Com mãos quentes e ainda assim delicadas, ele retira as pequenas gotas de água de sua pele morena.
- Já sequei. Não se preocupe.
Ela ri, sensível e sensual.
- Te amo.
- Amo mais - replica ele.
- O que você vai pedir? Há crustáceos hoje e...
Não muito longe daquela mesa, há um outro homem. Está só e infeliz. Há alguns minutos reparara numa jovem moça, belíssima, sexy. Comia sozinha, como se estivesse realmente sozinha. Mas em questão de segundos, um homem chegou, sentou-se ao seu lado e começou a lhe dizer coisas quentes. Ele sabia disso pois o vira passando a mão entre os seios da mulher. Um cafajeste, passando-lhe a mão em pleno restaurante! Ela gostara. Dava para perceber... talvez ela o conhecesse, talvez não. Ele não pretendia descobrir. Fora decepcionante demais ter uma mulher consigo e de repente, não tê-la mais...
Ele tinha um plano.
O homem quer contá-la a surpresa, era o momento.
A mulher já esperara demais. Quer contar o segredo.
- Preciso dizer algo - disseram os dois, em uníssono.
- Você primeiro - disse ele.
- Não, você primeiro - repete ela.
- Tudo bem, então - começa ele, ajeitando os óculos. - Eu pensei muito e decidi que...
Um, dois, três. Três tiros!
Um quebra o prato. O segundo finca-se acima do pescoço da mulher. O terceiro acerta o homem em cheio no peito.
No rosto do lunático assassino, o esboço de um sorriso.
Ela não seria mais dele, nem contaria sua gravidez ao namorado. E ele não o incomodaria mais, não teria tempo de ter sua namorada como noiva.
Acabara-se o lado romântico da mesa.
(Os outros presentes, que comecem a gritar!)
2 zascandil:
Funesto.
Sério que achou?
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