terça-feira, 27 de julho de 2010

Antropofagia

Ela. Move-se com a suavidade de um pássaro. Um movimento sub-epiléptico que a joga para frente e para trás. O escuro a domina, a toma, envolve-a. E ela se move com a suavidade de um pássaro. A música é lenta, quase muda. Com as mãos, a batida ganha personalidade. Dança, dança, dança, dança, dança. Os cabelos, como uma cortiça, esvoaçam e se deixam levar pela dança, dança, dança. O mundo a revolve e o que era azulescuroquasepreto, torna-se vermelho: vivo, quente, pulsando. As mãos movem-se com os dedos e os pés e a cabeça e os seios. A batida é dura, crua e inevitável. Parece prepará-la para uma explosão. A adrenalina aquece, está frio. Os movimentos são atrativos, sensuais. Ela está só, mas acompanhada por milhares pares de olhos famigerados. Uma guitarra nasce e grita, arranha-a, pede-a sua loucura, desenvoltura. E a música escorre.
Escorre.
Escorre.
Escorre.
Dança, dança, dança.
Ela gira, cai, levanta, balança, rodopia, grita, pula, abre, esconde, fecha, mostra e encanta. A dança.
Vai sendo empurrada para frente, quer ir para trás. Fica nisso, até abrir os braços e ser engolida pelo nada.
Abre a boca, e sua epilepsia é a mutação do orgasmo. Ela vence a dança e comemora, dançando, sua batida desesperada e agonizante, até a morte.
Porém, antes da morte, fecha sua boca. Dentro dela, uma língua e seu cérebro, ainda a pulsar e sangrar.
Ela comeu sua mente.
E lambeu seus lábios com um querer de mais e mais e mais e mais e mais...

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