segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Momento depressivo
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
As regras do jogo
domingo, 6 de dezembro de 2009
Declaração Henricana
Os tempos de paz estão terminados.
Declaro a não-adoração.
A não-observação de:
- Defeitos;
- Qualidades;
- Loucuras.
A não-falsidade – sinceridade
Dez.
Cem!
Mil!
Quero paz, gás, solidão.
Declaro aberta a temporada de Acompanhantes
(abaixo os pacifistas, puristas e putistas).
Abaixo o excesso de fraquismo, frescurismos. Indiferentismo.
Superexposição de vida.
Pessoas absurdas vivem vidas absurdas.
CALABOCA. Calamorra!
1460 dias ou 7 meses de pura cegueira, surdez ou alucinante mudismo pueril.
Tire a roupa.
“Não há remédio, choro, macumba que me faça mudar de ideia. Sem volta. O sonho acabou. E garanto: não foi bom enquanto durou. Chega de prêmio de consolação.”
E isso é tudo que declaro.
Bitch.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Cidade morta
Naquela noite decidi ir-me embora de ônibus. Saí mais cedo, com meu amigo Thiago e um colega em comum. Fomos ao terminal de transporte coletivo, bem próximo de onde estudávamos. O tempo estava agradável e suave. Pegamos nosso ônibus e lá fomos nós, os últimos bancos, as gargalhadas, conversas bacanas. Circulamos por toda aquela enorme universidade, como era de costume. Vimos as árvores, os estudantes voltando para suas casas, os carros... Tudo parecia com um dia comum, um dia daqueles que começam, terminam, e você não se lembra de nada. O único fato importante que me ocorrera neste momento fora a compra de alguns filmes. Nada mais. Nada mais até nos depararmos com uma surpresa, logo na saída da Universidade de São Paulo...
As luzes se apagaram.
Foi um momento bem bacana. O campo verde que permeia todo o lugar desapareceu no breu. A escuridão tomou posse. Nós riamos e nos divertíamos. Sempre gostei da escuridão repentina e do que ela trazia. Meu pai costumava me contar histórias ao apagar das luzes. Sempre acreditei que o corte de energia unia ainda mais as pessoas. E foi o que presenciei nessa noite especial. O ônibus continuava fazendo seu percurso normal, como se nada estivesse ocorrendo. Os comentários eram poucos, mas todos percebiam que era tudo muito estranho. Os prédios da universidade que possuíam geradores estavam em paz, iluminados. O resto era nada. O transporte saiu da redoma chamada USP que o protegia de tudo e todos e infiltrou-se na selva de pedra. A selva também estava às escuras. Não sabíamos ainda, mas tanto a selva, quanto o campo, o cerrado, a caatinga, a planície, o planalto, o litoral...
As vozes se elevaram ao ver que aquela área nobre de São Paulo não estava iluminada. Nem mesmo os semáforos controlavam os humanos. Estava tudo entregue à boa vontade dos homens. O medo bate o sino, pela primeira vez. Eu, que sempre pensei que seria fácil viver sem energia elétrica, vi que me enganara. Homo-sapiens construíram seus mundos numa base elétrica. E sem essa eletricidade doentia, não conseguiríamos sobreviver ao caos. Ao horror. Meu amigo me abandonou assim que saímos da Cidade Universitária. Ele estava confiante que em sua casa ainda havia luz. Não demorou muito para que todos percebessem que não havia luz em lugar nenhum. E o medo bater o sino novamente.
Agora era a boa e velha psicologia falando aos nossos ouvidos. Quanto duas ou mais pessoas vivem a mesma situação inesperada, seus instintos as aproximam. É por isso que conversamos com desconhecidos quando o elevador quebra ou vemos um acidente. Nosso medo é que nos uni. Os passageiros daquele grande barco urbano iluminado começaram a ligar para suas casas, amigos, familiares, trabalho. Porém, nada. Nenhum sinal, ligação concluída ou secretária eletrônica. Os aparelhos do diabo, que transmitem nossa voz de uma forma diabólica, para qualquer lugar do mundo estavam parados. O medo deu lugar ao terror, e este tocou o sino.
A educação se perdera. Agora era o momento da rebelião. Gritaria, palavrões, brincadeiras sem graça. Todos falavam juntos, para afastar o sentimento de solidão. As mulheres perdiam a compostura e os homens surpreendentemente a ganhavam, para a posse de macho racional. Aguentávamos fortes àquela provocação da natureza humana. Aguentávamos. Então, chegamos à mais popular avenida de São Paulo. Lá estava ela. Imponente, importante e negra.
A Avenida Paulista estava naufragada na escuridão. O terror beijou o medo neste ponto.
Por sorte, consegui falar com a Arianne, que estava em Guarulhos (leia-se outro mundo) e ela me disse que lá ocorrera o mesmo. Outra amiga, Juliana, estava na mesma, quero dizer, na pior. Seus cabelos molhados não podiam ser “penteados” sem a energia elétrica. Duas ligações rápidas e um breve momento de lucidez em meio ao nada. O HSBC Belas-Artes, meu cinema favorito dentre todos na cidade, havia fechados suas portas. Eu me perdi nos pensamentos.
A partir da Paulista, o motorista enlouquecera. Trancou as portas do ônibus e caminhou em direção ao terminal, tanto o de transporte quanto o de vida. As pessoas gemiam que gostariam de descer, mas era relativamente impossível, já que se o nosso condutor abrisse as portas, pessoas desceriam e outras entrariam sem nem ao menos pagar a passagem e respeitar o limite de embarque. A inteligência se torna burra e nos põe no modo automático de viver. Um blackout de ideias. Stand-by de ações. O desconhecimento provoca a histeria. E uma mulher gritou então.
A sua parada já havia passado há alguns minutos. Ela gritava loucamente. Queria chegar em casa. Os outros passageiros ao seu redor tentavam acalma-la, mas era impossível. Ela dizia não conhecer nada, nem ninguém. Estava perdida no mundo. O motorista fingia não ouvir. Todos que não estivessem envoltos pela voz da mulher, estavam envoltos pela voz de suas mentes. E veio seu mais estrondoso grito: “Motorista, eu quero descer!”. E em meio ao burburinho das assustadas criaturas do ônibus, em meio à cidade negra, em meio ao Viaduto do Chá, o ônibus liberou a mulher. Daqui para a frente o clima mudou. Ninguém tentava mais fazer ligações inúteis para suas casas. Não havia vozes, sons, nada. Todos mudos, quietos, apenas aguardando o momento da última parada do ônibus. O momento de irem para suas casas no fim da noite. Porém, isso era o que pensávamos...
Ao desembarcar, a surpresa foi como um choque. O terminal estava completamente lotado, parecia uma cena de acidente. Pessoas, pessoas, pessoas. Todos os espaços preenchidos. Agora, o clima não era mais de pandemônio. O caminhar era lento, quase como zumbis. Entrei na minha determinada fila e esperei o veículo que me levaria para casa. Quando ele chegou, todos voaram para o carro. Não havia filas. A burrice tomara conta novamente dos humanos. Na segunda leva, entrei e fiz minha viagem. Novamente o fato de todos passarem pelo mesmo desafio os tornava amigos. Conversavam entre si, comigo, conosco. Eu evitava todos. Só queria estar em minha casa, na minha cama, naquele momento noturno. As ruas estavam mortas, desertas. Medo.
Incrivelmente, havia luz na área em que moro. Outra dimensão. Consegui chegar são e salvo, cheio de pensamentos e deslumbres sobre a fantástica noite que eu havia presenciado. Tive vontade de escrever, falar com todo mundo possível, mas me delimitei a ficar sentado no chão, sentindo a terra. Sentindo a música mundana que toca e ninguém escuta. A dança da escuridão.
A dança do sono. Apaguei as luzes para o mundo.