quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Sono

O menino vê.
Lá está o seu grande pesadelo: o monstro que o assusta, mas também o impressiona pela grandiosidade. É turvo, não sabe bem que cor exata. Talvez ele seja invisível, transparente. Talvez ele só espelhe o que vê do céu, como um invejoso Narciso. Não se sabe ao certo, não se recorda. O menino o vê, com admiração e assombrosidade. Vestido com roupas em crochê, aquele era um passado distante demais para detalhes. Distante demais para guardar sentimentos. Só se lembra da tal roupa, do tal turvo e nada mais.
Em tanto tempo distantes, criatura e criação se esqueceram da face um do outro. Doze anos de perda e de medo do reencontro. O medo de reencontrar a quem tantos misteriosos sentimentos lhe proporcionou. E por falha na história, o momento foi propício.
A ousadia custa caro: é preciso sofrer para rever tão bela poesia, sem convite. Entrar sem bater é ousadia verde. Suores necessários para azuis salgados.
E eis que o menino viu: seu grande pesadelo metamorfoseado em beleza ímpar. O azul mais-que-perfeito. A confusão de sons e o suor lhe pingavam, mas não confundiam seus sentidos. Visão para vê-lo se perder com o céu no horizonte. Tato para tocar-lhe os pés junto da areia do tempo, areia branca e pura. Boca para beijar-lhe e sentir, acima de tudo, o sal na pele: o gosto de mar.
O menino já não mais menino, já não mais perdido entre vida que não lhe pertencia, embora ainda boquiaberto com a magnificência azul, pedia melhor encontro: mais profundo, menos terrestre. E tomou-lhe a água da discórdia, água que tanto lhe trazia como retirava. Água atemporal, água seca... água viva.
Do reencontro gélido à intimidade quase adulta não demorou muito, o monstro já não lhe aterroriza, impõe apenas o respeito que lhe é merecido. Apenas a vontade de ambos, dos presentes sinceros do menino, das conchinhas resgatadas na orla. Pé na areia, sempre e olho no horizonte. Festa ao chão, de estrelas. Cadentes, cadenciando os risos, os passos, as danças e os desejos.
Desejando água de beber o doce do mar noites tropicais ressacar matutina com coloridos de grãos.
Assim assim quis ter o oceano por todo o tempo. O menino era feliz: sabia da reciprocidade das ondas. E no último encontro ensolarado, não pediu nada que o infinito dos grãos de areia, que o infinito de onde a vista não alcança não pudessem lhe dar:
"Traga-me o amor, embalado em concha. Pérola negra, nunca vista, porém já amada e ansiada".
O menino vê futuro bom, sal que nunca adocica. Poseidon há de cumprir sua promessa.
Vem e vai vem e vai vem e vai vem e vai vem e vai vem e vai vem e vai...
Já não sei mais se o sal que me toca a pele vem do mar ou das minhas lágrimas.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Memento mori


Não sei do atual, mas há algum tempo tenho me dado conta da fragilidade de todos.
Não sei do atual, não sei o porquê da existência hipocondríaca.
Queria um estudo aprofundado sobre as loucuras da psiquê. Me seria de bom uso. Portanto... adentrando o fabuloso mundo memento mori, eis que me pego pensando sempre no legado de cada um, na dor, no que fica e no que se vai. É absurdo, eu sei (maison du diable), mas não posso evitar.
O que você vai deixar para mim? É uma questão do destino? Sentirei saudades?
É... só não me torne deus ao fim da estrada. Fui-me mortal, e assim sempre serei. A santidade deixo às pedras. Cisnes negros caminham pela lâmina aquática do sofrimento.
Medo só há na consequência, não em decorrências.
Será que alguém já encontrou-se no limbo mental? Onde não é exatamente clara a realidade do mito?
Como tornar-se mito, se tudo soa tão... tabu? Minotauro.
A roda do ka está sempre alerta e em movimento. Talvez todos necessitemos desses momentos de profunda reflexão e pseudo-retorno ao nosso lar pré-fecundativo. Talvez só eu e minhas ponderações precisem disso.
Não sei. Tenho ansiedade. E medo de estragar. Decepcionar.
E medo de me perder de vista de mim.
Medo de coisas que doam.
E de fracassar.
É tudo uma questão de como olhar o dado lançado. Aquele que se vê no espelho sou eu. Minha cabeça não está boa.
[filho de cuca legal]
A situação toda se define com meus cabelos. Eles falam por mim: pela rebeldia, pela descaracterização. Vejo o momento breve em que aquilo que tanto foi protegido e adorado, ser cortado sem dó. Porque é assim que eu funciono, enquanto me agrada, continua ali, mantém-se belo. Não me agrada mais - o corte é rápido.
Vale?
Quando o mestre vai, o aprendiz fica desfalcado. Não acredita e passar por alguns momentos malucos à la Kübler-Ross antes de procurar realizar a situação. Quando encontra a verdade, junto dela vem a beatificação e o arrependimento pelo não-feito; é dentro do aprendiz, somente, que nasce o ódio à inferiorização (inferioridade?) humana. Incomunicabilidade. Oportunidade. Não sei, divaguei nos meus próprios medos.
Desculpe pelo aspecto perdido. É tudo uma tentativa de contar o que anda tão profundamente segredado.
Há terra à vista. Só não sei ainda se estão devastadas ou não.
Prometa-me que quando dado o momento, não haverá arrependimento, nem dor. Haverá busca pelo dito e pelo feito. Os bons serão lembrados. Os ruins serão aprendidos. Lembrar-se-á do caminho individual e de que sempre tem algo para nos ser dado como ensinamento, ou presente.
Faço-me dia apenas para mim.
Faço-me difícil para por fim ser lembrado que vi  mudança e me tornei mudança. Abdico-me de tua ausência. Presenteio-me com a liberdade.

[and now I walk into the wild]

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A paixão segundo H.G.

Adentro agora o submundo das palavras.
Penetro cegamente o reino das baratas.
E assim iniciou-se tal qual a vez de Cristo(vão?): de uma leitura me veio toda a verdade do mundo.
Noite tropical - meu corpo repousava sob o colchão ao chão, e eu lia Clarice Lispector. Eu lia a ascética do inseto de olhar negro, facetado, brilhante e neutro. Aquele objeto de grande luxo.
Tomado pela paixão, as letras me engoliam em asco e empatia. Deglutira-me em meio a tanto horror, tanto sol no meio da noite. Aquele quartinho de empregada era meu. Eu estava ali, pronto para fechar a porta do armário. Peguei a valise com o H.G. no couro e me permiti o segundo nome. Ali eu podia ser, mesmo não gostando dele: o ser requer seriedade, sentimento. Era uma liberdade natural, e na viagem, só eu me acompanho mesmo. O resto é desejo.
E no calor do amor meu por G.H., eis a aparição da face negra!
Gritei, em comprimido silêncio (a surpresa me atinge mais que o ser em si). Surpreendi-me gritando pela escória do subúrbio... e por alguns segundos, me perdi do caminho de casa.
Logo me descobri dentro de casa, dentro do tal quartinho branco, e realmente estava ali, a madame americana. A musa secular. Tão divina que não pede licença para entrar: adentra meu submundo ali - tão desprotegido pela paixão, tão frágil pelo nome!
Maldita seja a divindade do lixo.
[lavo meus olhos para não contaminar-me de tua santidade]
Naquele voo cego recuperei os sentidos, e fez-se o tato meu escudo primeiro. Nas mãos nuas, busquei a proteção dos pés. Sim, só me equiparo à rainha negra pelos pés. Dos pés se faz escudo primeiro.
Certamente ela conhecia meu despreparo, afinal aquele eu que a vira era o mesmo eu livre de máscaras. Era o buraco na árvore em que G.H. contava suas revelações. Era H.G. e naquilo a barata viu alguma vantagem.
E a mãe imunda voou em minha persona despudorada. Fez-se agonia em êxtase.
No momento seguinte fez-se a luz culpada do voo. Sempre a culpo em resignação e hipocrisia.
Janelas abertas são convites gozosos.
Voltei-me às armas e tentei inutilmente provocar a revolução do eu sozinho com a liberdade. A americana riu, e isso compreendi. Apesar da língua estrangeira, o riso foi tão maléfico quanto uma mãe daria ao seu filho. Naquele instante eu fui filho da barata.
Não que eu não compreendesse o inglês, só não compreendia a estrangeirice dos fatos, a entrada não-autorizada em tão íntima profundidade poçal. Culpo o quente em resignação e hipocrisia [amém]!
Sem desistir em iminente fracasso, a falsa majestade preta fez de casa o que me era conforto e minha paixão deve ter-se iniciado bem aqui. Do quarto branco infinito só me restou o colchão ao chão. Tudo era medo e asco. Transformei os sentimentos nulos em raivosa espera.
Posso relembrar do livro cedido especialmente para aquele hiato sentimental no sul do Brasil, aquele da cucaracha brasileira em terra do tio Sam? Era para ser só um hiato, portanto seria de extremo bom-tom reavê-lo em minha cidade, conforme combinado. Não digo mais palavra sobre. Sendo assim, decidi munir-me de conhecimento. Ele me protege da barata nossa de cada dia. G.H. já me dizia: "bendita sois vós entre as baratas".
Sendo assim, tomei meio litro da coragem envergonhada e sentei-me no palácio da bruta senhoria.
Continuei no cotidiano-inconsciente-azul, embora não sabia a dita que minha égide estava a punho, esperando pela audácia gratuita dela. Aquele meu eu já não parecia tão pueril e dado, agora era o outro, H.G. estava dormindo. Ela que viesse nesse... te prepara, vadia! No fundo do poço eu ria aquele riso americano. Venha, mamãe-filha, para a morte.
Pausa para compreensão. A posta morte não era a morte literal, porque no meu ínfimo era uma morte shakespearearizada. Era morte de sangue de barata, de mentirinha. A rainha nunca perderia o trono. É só encher de ar e voltar à ativa, bem longe de mim, diga-se. A morte foi dádiva a quem tanto a viu agir formalmente. Dito isso, voltemos ao causo.
Fiquei pouco tempo no meu cotidiano-inconsciente-azul dentro do quarto branco. Logo chegou-me a sensação presencial da desumanizada que saíra do templo. Agora, sim! Eu com conhecimento escudeiro agora sabia mais que a falsa majestade. Sem antenas eu já soubera de antemão a forma real da velhice. Era uma barata, apenas. Nada mais qualitativo que dar o nome a quem lhe sabe o significado.
Dando os nomes certos me protejo do erro.
Dado o conhecimento a quem teve sede e a arma ao assassino, foi de uma vez que depus a falsa negra rainha. Caída ao chão, fora de seu invólucro de superioridade, a venci. Venci temporariamente - sabia que quando menos esperasse ela se encheria de ar e me vingaria sua primeira morte com aquela provocação lixeira típica e sem esforço. Por isso mantive o tal livro encravado em sua cintura dura e grossa (crec crec soou a mim).
O sentimento do mundo que me tomara ao teatralizar a morte foi dissipando-se conforme eu me voltava à delirante G.H., e sem meios-termos, ela me envergonhava do ato em si, do desejo. E a cada linha retornada, meus olhos outrora lavados contra a santidade baraticida agora buscava o milagre da ressurreição. Eu me distraia da leitura por culpa da morte. Se houvesse a ressurreição, meu perdão seria concedido em paz para prosseguir a viagem (des)culpado.
Todavia me enganei várias vezes daqui em diante.
O perdão me foi negado e não consegui bilhete para a alucinação. Fiquei preso em sonhos lúcidos e quando acordei, o corpo ainda tinha fincado em sua cintura o que antes fora minha égide. Meu grito de horror voltou-se à barata agora. Esperava mais inteligência do subsolo. Superestimei a vítima em cega brutalidade.
Eu fui vitimizado pelo meu próprio ato.
Ainda sem poder prosseguir no quarto branco fictício, fui aos meus afazeres. E só retornei com sol a pino. Adiei enquanto pude, esperançoso com o mais absurdo dos milagres.
[não, não acendi o cigarro planejado]
Removi o livro com a delicadeza com que cometi o crime.
Ali estaria para mim um cadáver. E recebi minha penitência ao ver as antenas, ah, as antenas! As antenas estavam se comunicando com minha alma, senhor!
Anestesiado pela dor surpreendente, removi a vida ainda falante para fora do quarto - ao ar livre - ainda esperançoso de transformar tão pouca energia em voo amaldiçoado, água em vinho, pedra em ouro. Bendito é o voo longe de mim.
Por fim, paguei meus pecados todos com a delicadíssima forma de ver o corpo sem vida passar todos os dias por mim, molhado pelas chuvas inexoráveis de janeiro.
Cometi um assassinato e meu pagamento é me confundir com G.H. (ou seria H.G.?) por toda a eternidade.
Cometi um assassinato e meu pagamento é saber por toda a eternidade que nem a mínima das baratas ressuscita... a minha graça maior foi conhecer a inexistência delas. Inexistem como dinossauros.
Nem a mais imortal das viventes conhece o infinito. Amém, disse meu sorriso espantado.
Ai de meus atos falhos.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

São São Paulo

[a cidade é o mangue: abriga os homens-caranguejos que vão do lixo à lama]


Eu aterrisso em São Paulo. A capital-natal, a metrópole-mãe.
Sou um filho do Caos, pertenço ao congestionamento de ideias, ao engarrafamento de passos apressados.
Dirijo meu destino dentro de trens lotados, eu fumo a poluição. Eu choro ácido.
E me encanto repetidas vezes ao ver o céu de morangos podres em um fim de tarde. Ver o vômito migrante sentado no passeio público. Me surpreendo com anjos caídos com coca-cola nos bolsos. Me instigo com a sabedoria dos loucos. Não tenho medo de nada: sou filho de Augusta, sobrinho de Angélica, neto de Consolação.
Não que me apeteça, mas o regozijo moderno é comer as pessoas. Comer a cada esquina-cega, a cada parada obrigatória. Sou um antropófago do chorume cidadão.
Sinta o cheiro putrefato de globalização!
Sou filho do Medo, da Violência, da Intolerância. 
Não tenho medo da morte, só do povo. Veja-os andar lentos, iguais e cegos (deleitei-me de seus cérebros ao café da manhã: estavam ocos, suculentos)!
Nasci sob o signo da rotina. Sou filho do rio Tietê.
Meu sobrenome é Marginal. Encontre-me na Praça da República - fui abortado por ali.
A beleza de minha mãe é bipolar, quase grega. Amo-a durante a noite, desejo-lhe a morte durante o dia. Mas tenho-a importante pelas tetas de leite negro, amargo.
Vacas profanadas me mostram os cus.
E em vida adulta o que se tem é a divina epifania dos pequenos momentos. Sair de casa, pegar uma bela chuva na sola do sapato pelo destino e ainda retornar com temperaturas baixíssimas. Felicidade é aqui.
Felicidade é aqui, com direito a esquizofrenia, síndrome do pânico, depressão, hipocondria. Presentes dos deuses!
Ai, lá vem novamente a mesmice dos dias, me corroendo os órgãos, dilacerando meu fígado. Bônus aos ratos urinando em nosso travesseiro e baratas americanas descansando em nossa boca, o convite é dormir. Escorre-lhe pelos cantos o caldinho branco, já sabes de antemão o sabor do mofo. Talvez se eu deitar em agulhas, consiga arrancar do sangue tanta pureza, tanta euforia inseticida.
É a psicodelia da cidade me comendo feito traça. Eu como, tu comes. Nós manjamos tua sagacidade.
Sagacidade. Fugacidade. Voracidade. Alice nas cidades.
Brindemos com lama! Água poluída (faz bem à pele)!
Trago na cestinha de ovos podres todos os sabores de pessoas fúteis. Em meus olhos, a câmera atemporal guarda o cotidiano esquecido em polaroides urbanas. Sinto cheiro de morte. Sinto cheiro de chuva em asfalto, o peixe podre está em alta. Comamos em frente ao Theatro Municipal (ou no Páteo do Collegio).
Cansei. Vá às putas.
Eu pego o caminho da estrada. Vou-me ao porto. Vou-me ao mar.
Embora não te preocupes comigo: levo-te em uma sacolinha plástica junto de ar poluído. Fuma-lo-ei.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Danda-Dindi

Escrevo para ti. Dedico-te minha letra, minha caligrafia.
Dedico-te palavras para desenhar teu corpo nu, sem nuances. Sigo-te em meu canto, calado.
Deita-me em teus cabelos, canções aquosas. Deita-te em meu colo, cheiro de mar.
Maré.
Venha ao mar venha ao mar vem me amar vem me amar
Prepara-me o café: seja-me tal qual o amargo, o âmago, o amor. A paçoca e seu agridoce.
E se faça a saudade primeira. Grãos de areia em teu umbigo. Sopra-os: são poeira das estrelas. Faça teu desejo real, assim como busco em teu rosto a constelação perdida que me abandonou aqui.
Que venham encontros e cais. Meu porto seguro, meu porto alegre.
Desembarco meus anseios, presenteio-te de beijos-todos-abraços-muitos. Venha-me sem pudor. Abandona teu medo com fugacidade. Despreza o inadequado com coragem. Não diga adeus! Apenas libera seus outros eu's que me levam ao rio de sua mente, às coordenadas da sua verdade. Teu mapa-múndi. Sonos. Sou. Nós.
Só peço a exclusividade lógica (como 2 e 2 são cinco). A liberdade óbvia. O querer não mais do que esperado, dá-me tudo que não for forçado. O não-direito, o desapego.
Meu passo é teu, meu pulso é deste todo-poderoso sentimento.
Dosa-me com tua boca, gota por gota da anti-amargura dos dias, da solidão. Antítese do sozinho és para mim.
Caminhe sob meu sol. Arda com lascívia. Mata com luxúria.
E beija-me a boca tua com ferocidade própria de tua espécie. Seja leãozinho, seja tigresa.
Seja-me quente enquanto infinito.
E carinho enquanto dure.
[ama-me muito mesmo que por pouco tempo]


Ah, se tu soubesses...
... que o que te faz ser quase um segredo é ser-te assim tão [ ].

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O coração e a pena

Eu tinha algum motivo relevante, já não me recordo.
São tantos detalhezinhos que eu acabo me perdendo na grande história. Talvez seja melhor.
Me parece como aquela tarde outrora, em que eu estava dentro de um ônibus, e o vento corria solto na pele anteriormente molhada por aquela água mineral, puríssima. Olhei ao céu e lá estavam todas as cores inesperadas, e também os sentimentos desejados. Às vezes esse misticismo gratuito vem à flor da pele, me derruba de toda urbanicidade típica, de toda lógica. De extrema importância isso, saber quando pode-se deixar levar pelo irreal, pelo mágico, pelo não-confirmado.
Não quero divagar muito, meu intuito é usar a balança. Apontar o tempo ido, o ano passado.
Sim, é possível a metamorfose. Metamorfose, repito. Porque a mudança não equivale à carga da metamorfose: o poder em trazer consigo tudo já vivido e ainda o novo. Sábio era Raul.
E metamorfoseando por aí lá vão-se os meses, os (falsos?) amores, os desafios, problemas, risadas... pessoas. Nós evoluímos? Nos desenvolvemos? Talvez.
Me encontro mais no talvez do que nas certezas.
Ódio poruns amor poroutros.
[amor esse sempre caçado nos lugares errados]
Ai, Dindi, se tu soubesses...
Lembrar das tardes de divagação, olhos ao teto. Lembrar das tardes de catarse, boca profana.
Lembrar das noites frias, madrugadas niilistas, manhãs sexuais. Lembrar das quatro estações, do inverno assassino, do choro gatuno (dos gatos todos e miados muitos). Manhattan, Paris, Quebec, Reykjavik, Porto Alegre. Invento cais e não sei a hora certa de me lançar.
São tantas lembranças de um tempo novo... a seleção acontecerá, gradativamente.
Houve felicidade, houve dor, é de praxe - nenhuma novidade. Houve perda.
E vem aquela dorzinha em formato de vela, lá no finalzinho do peito. Ela caminha devagar, chora cera. A minha atenção só pode ser desviada se me fecho a tudo, ouço a neblina pululante e eis que se fazem matéria as árvores (ladras de minha falácia) e os dentes (doadores do meu ar fálico).
Primavera entre os dentes.
Há também o horror. A contra-evolução das espécies: o ódio generalizado, a repressão encravada, a língua afiada. Enquanto isso, eles riem de nós. E eu me envergonho dentro de mim. Olho ao teto.
É a crise da beleza, degradando-se como fruta podre. Germinando o fungo. Eu como o cogumelo da experiência, do real extremado.
[faz-me mal, faz-me mau]
Muitas foram as oportunidades, os encontros comigo mesmo. Pude observar-me melhor, cientificamente falando. Antes da palavra não-dita houve a observação minuciosa de vontades e quereres. Ai de mim que sou tolo, sou tão pouco, perto do meu eu maior.
Acredito nele? Lá me vem o talvez novamente.
Tudo é resultante de uma longa e exaustiva brainstorm natural, que me levava ao papel e à caneta de forma quase inconsciente. Foram dias, semanas e meses em memórias não-vividas, flashbacks futuros (flashforwards?) e muitas palavras amigas-passageiras. Se pensar desta forma, o que me parece é uma coleta (ou colheita) de passarinhos mortos. Sim, mortos, pois quando vivos os deixei voar alto demais. Agora eles não cantam mais - perderam o valor entre aviões e nuvens densas.
Meu trabalho agora é fazer um grande funeral de pássaros mortos, talvez encontrando carne fresca dentre dentes de alguns, podridão dentre outros. Só é preciso ligar a chave que me move.
Saia, saia. Ela me disse. Saia, saia.
E quando eu vi, já me encontrava alucinado pela falsa baiana, pela pimentinha - mais do que o aceitável. E como tudo é liderado pelo caos, fui de encontro ao impávido colosso, o regente sem face. Ainda me encontro neste estado calamitoso, embora agora eu esteja atento e forte. Mais do que no instante convidativo de "saia, saia". Cortem-me os cabelos, relembre-me todo o resto. Não duvido nada estar em meu momento de "relembrar" todo o plano superior. Sentir-se em casa, como diria alguém. Estou voltando para poder tomar meu lugar de direito, como rei desmemoriado relembra o rosado tímido do rosto da esposa/rainha. A única tristeza nisso é ter mais de vinte anos, vinte muros.
[o sangue jorrando pelas veias de um jornal]
O eterno-retorno do começo, como num certo livro... "lá e de volta outra vez". Cicatrizes para saber que o passado foi real...  E a ciranda fica cada vez mais distante do que era meu arquétipo de perfeição: as chuvas de verão retornam (metamorfoseadas) e as brincadeiras de quem não sabia o que era viver vão sendo desbotadas, as opiniões dilacerando, os beijos destroçando, os abraços vão partindo. Vão-se as pessoas, fica-se a presente ausência. É tudo dor no final. Ai, meu coração vagabundo...
No âmago de tudo, suponho que minhas memórias são como um xilofone, ou um pianoforte: algumas teclas são esquecidas temporariamente, mas sei que voltarão, cedo ou tarde. E junto delas virão gostos agridoces e maresias oculares, talvez. Vou abrir a porta para tudo que entrar deixando a hostilidade no capacho lá fora. Que venham as novas estações.
E os mistérios necessários para me navegar. Afinal, viver é preciso...
Findo por aqui, por ora. Tirando a poeira de quem me acompanha sempre na batucada da vida, companheira de trens azuis idos e ainda porvir.

As coisas estão tão esquisitas hoje em dia, que a gente… incrível… a gente anda ressabiado de dizer que gosta das pessoas. Então, a gente inventa coisas, entende? A gente inventa que é tímido e que não encontra jeito de dizer. A gente inventa que está ocupado e que um dia vai, sei lá, vai ter tempo de sentar e conversar. Aí, de repente, você se toca que não tem mais nada pra ser feito. É tarde.

Elis Regina


Meu coração e uma pena na balança.
Quem pesa mais? Qual é a verdade absoluta?
Pecados não-correspondidos, sempre compartilhados.
Sinal fechado.
[por favor não esqueça não esqueça não me esqueça adeus adeus adeus]

domingo, 4 de dezembro de 2011

(Re)visita

Din! din!
A campainha toca. Ainda funciona.
Raul corre para abrir a porta, gira a maçaneta e dá de cara com Benício - há tanto tempo não o via... Grata surpresa!
Os dois se cumprimentam como nos tempos de faculdade, nada mudou. A não ser a barba por fazer do Raul, e os cabelos mais desgrenhados do outro. Detalhes...
- Então, cara, vim buscar aquele meu disco do Velvet... precisando dele, Raul...
- Ah, claro, vou buscar, acho que está lá no quarto. Fica à vontade. Pega uma bebida na geladeira.
Benício aceita a bebida e abre a geladeira, encontrando - além de um guaraná - prateleiras completamente diferentes de quando morou ali, alimentos e tons outros. Mudança...
Volta à sala, senta-se no sofá e respira. Num súbito aqueles cheiros tão conhecidos lhe sobem às narinas. Tudo parece voltar, toda a atmosfera tão familiar... E junto lhe vem a melancolia nostálgica típica de coisas que não voltam mais. Ah, como eu era feliz...
E assim, o passado (que todos sabem ser um animal grotesco) trouxe de volta aquele pufe azul com um pequeno furo no canto direito... O relógio Dalínesco meio torto na geladeira... Nossa, como se esquecera do James Dean no porta-retratos tríptico? Objetos de afeição, que contavam histórias. Boas ou ruins, mas sempre importantes no contexto geral.
Benício ouviu aquele miado tão gostoso vindo do quarto, misturado com um afro-samba do Baden. Melancia veio desfilando direto ao colo do amigo-dono, toda carente e dada às carícias. Os pelos dançavam entre os dedos dele, como ondas entre rochas na praia. Ela se deitou entre suas pernas, e dormiu.
Aquele momento simples valeu por toda uma vida. Segundos preciosos de algo que já não lhe pertencia.
- Beni, acho que estou com seu Cinema Transcendental também, espera que já entrego os dois! - gritou Raul no quarto.
E toda a magia da memória esvaiu-se sem piedade. Não havia Melancia, Baden Powell ou pufe azul. A cor desbotada do presente estava ali, o aroma da felicidade se fora. Estava novamente só com sua solidão.
A não ser pela estante. A estante continuava intacta.
Aquela estante branca... talvez a única coisa que compraram juntos. Repleta de livros de arte, cinema, fotografia... Alguns discos bem tímidos no compartimento inferior, outros CD's meio perdidos... A organização milimetrada do Raul, as cores desenhadas por ele mesmo... a estante representava os quatros anos que passara ali. Quatro anos de maré. Quarenta e oito meses em êxtase, boêmia e verdade. A verdade valia por tudo.
E a verdade estava ali, meio empoeirada, mas (no) presente, no instante, na estante.
Benício sentiu a necessidade gratuita de tocar em tudo aquilo, para poder realizar em sua mente, tocar para ser real. E no leve passar dos dedos em lombadas calejadas, foi difícil segurar o choro. Choro esse guardado entre as palavras outrora lidas, outrora recitadas. Choro de quem não o fez quando ainda era possível arrepender-se. Choro engolido com o tempo.
- Beni, você está bem?
Raul o olhava perplexo, sem entender bem a situação toda. Se olharam por três segundos. Aqueles três segundos em que você deseja voltar, entender o erro, refazer o caminho. São três segundos onde as horas pedem descanso e os ponteiros apontam para o número dois em vez do um. Três segundos cujo alguns erros podem ser postos à mesa, mastigados de novo com certo ardume, com certo receio. E se meu final fosse feliz?
Um Benício marejado (enseado) respondeu:
- Estou bem... ferido.
Pegou os discos da mão do amigo e saiu.
Silencioso, seco, sem bater a porta...
E sem final feliz.